Não-sentimental

Imagem de chandelier, art, and Sia

Eu tenho raiva de mim todo dia. E me censuro pelas coisas estúpidas que faço o tempo todo. Como manter a minha dieta por apenas algumas horas.

Odeio quando sou rude com você. Acredite, dói mais em mim. Odeio o modo como eu desprezo seu amor e digo que não importa o que você sinta por mim, isso não vai solucionar os meus problemas. Eu odeio não dar prioridade aos meus amigos, eu odeio não dar prioridade às minhas vontades. Vejo a vida passar enquanto faço planos demais e não consigo concretizar nenhum. Começo mil projetos – na minha cabeça – o tempo inteiro. E é tão difícil lidar com essa minha mente. Entende? São tantas vontades, não cabem em uma planilha do Excel. Não sei administrar, não consigo me organizar. Enquanto isso, o tempo voa.

Tudo me irrita, inclusive esse seu ritmo devagar. Lento, como se quisesse me acalmar. Funciona por algumas horas até que você se vá. E sem sua presença eu só sei enlouquecer e me perder entre as listas que faço de tarefas a serem cumpridas, listas eternas e nunca finalizadas. Não tenho disciplina, não sou autodidata, quando é que vou me conformar? Quando é que vou me conformar com o fato de que a única coisa que eu sei fazer além de escrever alguns parágrafos, é assistir filmes e ler livros? A vida podia ser só isso. Inclusive, foi por isso que dispensei a minha terapeuta: para ficar em casa assistindo Netflix. Quer jeito melhor de aproveitar o tempo?

Lembrei de mais uma coisa que eu odeio: Estar apaixonada por você. Isso me leva para o conforto e o alívio, para as tardes de bobeira, comendo chocolate na sua cama e rindo de piadas sem sentido. Mas eu não quero me sentir aliviada. Eu não quero relaxar, entende? Sinto a vida passando rápido demais e sinto que tenho que vivê-la, que tenho que senti-la, antes que ela escape. É uma questão de milésimos de segundo, a nossa existência. Você percebe? Eu só quero cumprir todas as tarefas da minha agenda e ainda ter tempo para sonhar, cantar, dançar e ir ao teatro. Eu não consigo nem cumprir as tarefas da minha agenda, imagine só o resto. Imagine só se tenho tempo para as coisas mais importantes (não tenho). Quase sempre me sinto como uma velha que perdeu o vigor da juventude. Eu só queria dançar. Mas não tenho mais toda essa energia.

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Quando foi que eu parei de me aventurar?

 

Sempre sonhei em viver grandes aventuras. Quando pequena eu era às vezes super-heroína, às vezes estrela do rock. No tempo livre gostava de me esgueirar por lugares perigosos – ou nem tanto – para cumprir mais uma das minhas missões de super espiã meio ninja/meio gênio da tecnologia. No fim da noite eu dormia olhando para a janela, e sonhava com o dia em que Peter Pan viria me buscar e me levaria à Terra do Nunca. O rei dos meninos perdidos era meu príncipe encantado, a Terra do Nunca era o meu castelo de contos de fadas. Viver entre sereias, piratas e fadas, cada dia uma aventura e ainda por cima ser criança para sempre! Era tudo que eu queria.

A gente cresce e para de fantasiar. A gente cresce e sabota nossas próprias ideias e loucuras, das quais talvez pudesse brotar o mais alto pé de feijõezinhos coloridos. A gente cresce e se esquece de que um dia fomos crianças. Ou seja, nos esquecemos de quem realmente somos sem essa carga de moralidade e valores impostos que somos obrigados a ir carregando ao longo da vida.

Desde que cresci, ando com esse medo terrível de me arriscar. De sonhar alto demais e não corresponder às minhas próprias expectativas. Medo das aventuras pelas quais sempre esperei. Medo de dar a cara à tapa, de errar, de ouvir um não, de seguir meus instintos. Queria saber ser mais impulsiva, mais aventureira. E sem ficar constrangida por qualquer motivo. Queria saber exteriorizar a força que tenho dentro de mim, a minha imaginação e as milhares de ideias malucas que tenho todos os dias. Queria conseguir falar “eu te amo” quando tenho vontade, ou pedir perdão sem deixar falhar a voz. Queria saber mostrar para o mundo o que sei que sou capaz, mas que escondo por puro medo.

As experiências – e até os erros – são os maiores responsáveis pelo nosso crescimento. Todo mundo sabe disso, mas pouca gente se permite arriscar e, consequentemente, ser feliz. Ser criança de novo é lembrar-se do seu verdadeiro eu. A sabedoria destas pequenas é tão subestimada por nós, que tapamos os olhos para as verdades que os pirralhos nos dizem o tempo todo. Chega um ponto no qual nos é cobrado que sejamos adultos. O que, quase sempre, significa ter emprego, dinheiro, independência e responsabilidade. Mas onde fica a diversão nessa história toda? A aventura, o frio na barriga, a imaginação…Essas coisas se perdem no meio do caminho.

Não deixe que isso aconteça. Talvez já tenha acontecido a você, mas nunca é tarde para se recuperar a inocência de viver intensamente. Escrevo esse texto porque às vezes, nos dias ruins, percebo esse sentimento infantil se esvaindo lentamente de mim. Escrevo esse texto com conhecimento de causa. Com as crianças aprendi muitas coisas, entre elas a pura sinceridade e a coragem de fazer qualquer coisa, desde que seja divertido. E por isso me nego, sempre, a deixar de ser uma delas. A deixar de me aventurar. Tenho 21 anos e vou ser criança para sempre.

E você? Qual foi a última vez que se aventurou?

escrito em um espirro

Imagem de art

Ele gritou. Eu disse não. A gente sempre vai na contramão e não e não e mãos e sãos. E somos. Ou estamos? Indo. Ou parando? Chegamos, aliviados. Era errado e automático, era a minha fala que gemia e te encolhia. Enquanto isso, alguém dizia que eu era inevitável, em cada coisa irremediável. Não se atreva a falar, só olha para mim. Mas olha bem, olha me enxergando, tá? Está chovendo, não está? A chuva é linda e a noite é mais bonita ainda. Até quando, Deus? Até quando, respondeu. E acordou. Era tudo um sonho.

Você me disse para ter calma, mas era tudo um sonho e você não sabe de nada. Eu sei de tudo, eu sou um mundo. Eu sou o planeta que você quer explorar e que gira. E gira, e gira, e gira. Respira. E gira, e gira, e gira sem parar. Até se cansar. Você não se cansa de mim? Você disse que já sabia, mas eu queria te contar. Eu queria, porra! Me deixa. Me beija. Me seja. Você me prende demais, eu só queria ser mais. Mais do que isso que eu já sou, muito mais do que esse infinito que eu já sou. Acordei. Era tudo um sonho.

E assim, fico aqui sentada. Calada. Mais atordoada do que concentrada. Me deixa. Me beija. Me seja.

Não posso parar, e não quero. Me deixa em paz, tá? Já vai, já vou. A gente vai, nós é que não vamos. Não temos o mesmo destino, você sempre soube que eu não sei fazer versos. Já não quero mais que você leia essa maldita carta careta de amor. Vou jogá-la fora assim que terminar essa página, é isso. Deixa doer. Deixa arder. Meus pulsos já não sangram mais. Ai.

Minha mão dói tanto, mas não posso parar. Preciso terminar essa carta maldita dos devaneios tristes que somem em suspiros de estourar as veias. Vou cortar os pulsos. Chega! E era tudo um sonho.

O cansaço me machuca e me atropela e, mastigada pelos meus sonhos frustrados eu berro em palavras escritas, que é pra não incomodar ninguém. Não queria ser mais melancólica do que Caio Fernando em estado terminal, quem lê deve realmente acreditar que eu sou uma pessoa triste.

Eu sou uma pessoa triste?

Até logo. Até logo? Eu não quero ir embora, mas também não quero ficar aqui. Acho que vou fazer isso todo dia, essa maldição de escrever na contramão a minha insensatez.

Eu te amaldiçoei e você nem percebeu. Te condenei a não me esquecer e depois te envenenei. Você sentiu o doce mel da ilusão e vomitou. Você não morreu. A gente disse o não dito através de versos bem-vindos. A gente disse o que queria não ter dito. Mas a poesia era só nossa. A poesia de todo o mundo se tornou nossa em um instante em que tudo transbordava, os corpos transbordavam. Mas eu não te quero aqui. E era tudo um sonho. Não era?

Não era.