Escrever até o fim, sem ponto final

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Escritor tem pensamentos em prosa, palavras que precisam ser escritas antes de serem ditas. A necessidade de escrever é um bichinho inquieto, uma vozinha que sussurra no ouvido versos sobre pequenos detalhes do cotidiano. Todo escritor é um romântico à moda antiga, um sonhador. Ao invés de falar o que sente,  ele prefere derramar em segredo seus sentimentos no papel. Pensa mil vezes antes de dizer algo, e muitas vezes acaba não dizendo. Mas não fica engasgado: Faz uma poesia.

A escrita não é nenhuma dádiva de Deus. É sangue e suor, e muitas vezes é a única alternativa. Alguns escrevem porque só sabem fazer isso, outros porque querem ajudar alguém de alguma forma, outros só para se sentirem melhor. Uma coisa é fato: Quem escreve se organiza, se entende e se conhece muito mais. O texto é uma descoberta, de si mesmo e do mundo. Isso porque escrever é abrir caminho para um universo de infinitas possibilidades – e poder levar outras pessoas junto. Escreve-se algo que não deveria passar despercebido, escreve-se para gravar na história um sentimento (ou um diálogo, ou uma pessoa), escreve-se desesperadamente quando não há outro meio de expressar a vastidão de ser humano.

Como reconhecer uma alma de escritor: Pode ser um sujeito aparentemente calmo e reservado, ou pode ser um bêbado cínico. Muitas vezes pode parecer frio, mas não se engane. Escritor é um ser sensível, não sentimental. Escritor é, antes de tudo, observador. É um curioso ávido pela vida, um admirador das pessoas e da natureza, um ser misterioso – até perigoso, eu diria. Um escritor tem vários “eus” dentro de si e inúmeras aventuras a viver. Porém, por mais que eu tente desvendar o olhar de quem escreve, estou certa de que a melhor definição seja mesmo a de Drummond: “Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.”

Feliz Dia do Escritor!

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Procura-se: ar fresco

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Respirar parecia mais difícil do que já fora um dia. Marina acabara de comer um hambúrguer e algumas batatas fritas. O vestido lhe apertava o estômago e a calcinha ardia nas coxas. Se levantou da cadeira e foi em direção ao banheiro, para se debruçar na privada e colocar todo o lixo para fora. Mas não funcionou, faltou coragem.

Talvez o que quisesse fosse só sair um pouco daquele lugar, ter alguma distração ou adrenalina. Estava no escritório de advocacia, presa com um bando de animais que não faziam ideia de quem ela era de verdade. Aceitara o emprego por conveniência e, claro, pelo dinheiro. Pensou que pudesse ser um jeito melhor de passar o tempo que não fosse ficar deitada no sofá o dia inteiro assistindo a vídeos de receitas. Primeiro, porque ela nunca sequer tentou fazer nenhuma daquelas receitas. Segundo, porque aquela atividade lhe dava fome. E terceiro porque, mesmo que se dispusesse a cozinhar, não teria dinheiro para comprar os ingredientes. Ter um emprego era, realmente, uma necessidade. Mesmo que tivesse que passar horas em uma jaula escura e fedorenta – era assim que encarava o escritório.

Carregava um fardo diário de suportar o que a vida lhe empurrava goela abaixo. Além disso, não se sentia capaz de tomar suas próprias decisões ou de realizar qualquer coisa sem depender de algum tipo de influência externa ou boa vontade divina. As vinte quatro horas se arrastavam, assim como os sete dias da semana ou os doze meses do ano. Entre a lentidão, vários sentimentos agitavam dentro de si. Primeiro o tédio, depois a melancolia seguida do torpor. E logo vinha a baixa estima e a falta de energia, que resultava em preguiça no sentido mais amplo da palavra. Preguiça das pessoas. Preguiça de viver.

Finalmente a noite caiu e Marina pôde ir para a casa. No caminho, se entorpeceu de uma dose de Charles Bukowski no ônibus. Chegando ao apartamento escuro, não teve vontade de acender as luzes. Seguiu tateando até a cozinha. Bebeu um whisky, foi para a cama e chorou até dormir.

Por não estarem distraídos

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Clarice Lispector

 Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.