Procura-se: ar fresco

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Respirar parecia mais difícil do que já fora um dia. Marina acabara de comer um hambúrguer e algumas batatas fritas. O vestido lhe apertava o estômago e a calcinha ardia nas coxas. Se levantou da cadeira e foi em direção ao banheiro, para se debruçar na privada e colocar todo o lixo para fora. Mas não funcionou, faltou coragem.

Talvez o que quisesse fosse só sair um pouco daquele lugar, ter alguma distração ou adrenalina. Estava no escritório de advocacia, presa com um bando de animais que não faziam ideia de quem ela era de verdade. Aceitara o emprego por conveniência e, claro, pelo dinheiro. Pensou que pudesse ser um jeito melhor de passar o tempo que não fosse ficar deitada no sofá o dia inteiro assistindo a vídeos de receitas. Primeiro, porque ela nunca sequer tentou fazer nenhuma daquelas receitas. Segundo, porque aquela atividade lhe dava fome. E terceiro porque, mesmo que se dispusesse a cozinhar, não teria dinheiro para comprar os ingredientes. Ter um emprego era, realmente, uma necessidade. Mesmo que tivesse que passar horas em uma jaula escura e fedorenta – era assim que encarava o escritório.

Carregava um fardo diário de suportar o que a vida lhe empurrava goela abaixo. Além disso, não se sentia capaz de tomar suas próprias decisões ou de realizar qualquer coisa sem depender de algum tipo de influência externa ou boa vontade divina. As vinte quatro horas se arrastavam, assim como os sete dias da semana ou os doze meses do ano. Entre a lentidão, vários sentimentos agitavam dentro de si. Primeiro o tédio, depois a melancolia seguida do torpor. E logo vinha a baixa estima e a falta de energia, que resultava em preguiça no sentido mais amplo da palavra. Preguiça das pessoas. Preguiça de viver.

Finalmente a noite caiu e Marina pôde ir para a casa. No caminho, se entorpeceu de uma dose de Charles Bukowski no ônibus. Chegando ao apartamento escuro, não teve vontade de acender as luzes. Seguiu tateando até a cozinha. Bebeu um whisky, foi para a cama e chorou até dormir.

Quando foi que eu parei de me aventurar?

 

Sempre sonhei em viver grandes aventuras. Quando pequena eu era às vezes super-heroína, às vezes estrela do rock. No tempo livre gostava de me esgueirar por lugares perigosos – ou nem tanto – para cumprir mais uma das minhas missões de super espiã meio ninja/meio gênio da tecnologia. No fim da noite eu dormia olhando para a janela, e sonhava com o dia em que Peter Pan viria me buscar e me levaria à Terra do Nunca. O rei dos meninos perdidos era meu príncipe encantado, a Terra do Nunca era o meu castelo de contos de fadas. Viver entre sereias, piratas e fadas, cada dia uma aventura e ainda por cima ser criança para sempre! Era tudo que eu queria.

A gente cresce e para de fantasiar. A gente cresce e sabota nossas próprias ideias e loucuras, das quais talvez pudesse brotar o mais alto pé de feijõezinhos coloridos. A gente cresce e se esquece de que um dia fomos crianças. Ou seja, nos esquecemos de quem realmente somos sem essa carga de moralidade e valores impostos que somos obrigados a ir carregando ao longo da vida.

Desde que cresci, ando com esse medo terrível de me arriscar. De sonhar alto demais e não corresponder às minhas próprias expectativas. Medo das aventuras pelas quais sempre esperei. Medo de dar a cara à tapa, de errar, de ouvir um não, de seguir meus instintos. Queria saber ser mais impulsiva, mais aventureira. E sem ficar constrangida por qualquer motivo. Queria saber exteriorizar a força que tenho dentro de mim, a minha imaginação e as milhares de ideias malucas que tenho todos os dias. Queria conseguir falar “eu te amo” quando tenho vontade, ou pedir perdão sem deixar falhar a voz. Queria saber mostrar para o mundo o que sei que sou capaz, mas que escondo por puro medo.

As experiências – e até os erros – são os maiores responsáveis pelo nosso crescimento. Todo mundo sabe disso, mas pouca gente se permite arriscar e, consequentemente, ser feliz. Ser criança de novo é lembrar-se do seu verdadeiro eu. A sabedoria destas pequenas é tão subestimada por nós, que tapamos os olhos para as verdades que os pirralhos nos dizem o tempo todo. Chega um ponto no qual nos é cobrado que sejamos adultos. O que, quase sempre, significa ter emprego, dinheiro, independência e responsabilidade. Mas onde fica a diversão nessa história toda? A aventura, o frio na barriga, a imaginação…Essas coisas se perdem no meio do caminho.

Não deixe que isso aconteça. Talvez já tenha acontecido a você, mas nunca é tarde para se recuperar a inocência de viver intensamente. Escrevo esse texto porque às vezes, nos dias ruins, percebo esse sentimento infantil se esvaindo lentamente de mim. Escrevo esse texto com conhecimento de causa. Com as crianças aprendi muitas coisas, entre elas a pura sinceridade e a coragem de fazer qualquer coisa, desde que seja divertido. E por isso me nego, sempre, a deixar de ser uma delas. A deixar de me aventurar. Tenho 21 anos e vou ser criança para sempre.

E você? Qual foi a última vez que se aventurou?

escrito em um espirro

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Ele gritou. Eu disse não. A gente sempre vai na contramão e não e não e mãos e sãos. E somos. Ou estamos? Indo. Ou parando? Chegamos, aliviados. Era errado e automático, era a minha fala que gemia e te encolhia. Enquanto isso, alguém dizia que eu era inevitável, em cada coisa irremediável. Não se atreva a falar, só olha para mim. Mas olha bem, olha me enxergando, tá? Está chovendo, não está? A chuva é linda e a noite é mais bonita ainda. Até quando, Deus? Até quando, respondeu. E acordou. Era tudo um sonho.

Você me disse para ter calma, mas era tudo um sonho e você não sabe de nada. Eu sei de tudo, eu sou um mundo. Eu sou o planeta que você quer explorar e que gira. E gira, e gira, e gira. Respira. E gira, e gira, e gira sem parar. Até se cansar. Você não se cansa de mim? Você disse que já sabia, mas eu queria te contar. Eu queria, porra! Me deixa. Me beija. Me seja. Você me prende demais, eu só queria ser mais. Mais do que isso que eu já sou, muito mais do que esse infinito que eu já sou. Acordei. Era tudo um sonho.

E assim, fico aqui sentada. Calada. Mais atordoada do que concentrada. Me deixa. Me beija. Me seja.

Não posso parar, e não quero. Me deixa em paz, tá? Já vai, já vou. A gente vai, nós é que não vamos. Não temos o mesmo destino, você sempre soube que eu não sei fazer versos. Já não quero mais que você leia essa maldita carta careta de amor. Vou jogá-la fora assim que terminar essa página, é isso. Deixa doer. Deixa arder. Meus pulsos já não sangram mais. Ai.

Minha mão dói tanto, mas não posso parar. Preciso terminar essa carta maldita dos devaneios tristes que somem em suspiros de estourar as veias. Vou cortar os pulsos. Chega! E era tudo um sonho.

O cansaço me machuca e me atropela e, mastigada pelos meus sonhos frustrados eu berro em palavras escritas, que é pra não incomodar ninguém. Não queria ser mais melancólica do que Caio Fernando em estado terminal, quem lê deve realmente acreditar que eu sou uma pessoa triste.

Eu sou uma pessoa triste?

Até logo. Até logo? Eu não quero ir embora, mas também não quero ficar aqui. Acho que vou fazer isso todo dia, essa maldição de escrever na contramão a minha insensatez.

Eu te amaldiçoei e você nem percebeu. Te condenei a não me esquecer e depois te envenenei. Você sentiu o doce mel da ilusão e vomitou. Você não morreu. A gente disse o não dito através de versos bem-vindos. A gente disse o que queria não ter dito. Mas a poesia era só nossa. A poesia de todo o mundo se tornou nossa em um instante em que tudo transbordava, os corpos transbordavam. Mas eu não te quero aqui. E era tudo um sonho. Não era?

Não era.

Tempos difíceis

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Está sendo um trabalho árduo viver cada dia, sobreviver a cada semana. Sábado eu tenho você e domingo também. Mas segunda a sexta é uma luta, sabe? Um trabalho árduo. Sobreviver a mim, a sua falta, e a presença de todas as outras pessoas que não fazem nada além de reclamar dos seus próprios problemas e se esquecem que não são as únicas que sofrem nesse mundo de meu Deus.

Tem sido tempos difíceis. Mesmo quando o dia está ensolarado, mesmo quando a chuva cai forte como se quisesse lavar a cidade. E isso só deixa mais visível a imundície de onde a gente vive. As pessoas olham ao redor e não se enxergam. Ontem um moço forçou todo mundo do ônibus a ouvir coisas que não queríamos. E ninguém quis conversar.

As pessoas não estão dispostas a conversar, as pessoas não estão dispostas a relevar ou a se informar. As pessoas sequer estão dispostas a sorrir. O que falta no mundo é humildade.

E aí eu te perguntei o que é que a gente pode fazer. Se é que tem algo que a gente possa fazer para deixar o mundo um pouquinho menos parecido com um lixão. Você disse: sorria! Disse que sorrir é remédio bom de verdade, que se preocupar tanto assim não muda nada. E disse que assim como meu sorriso faz bem a você, quem sabe mude o dia ou a vida de outras pessoas. Não sou tão especial assim, eu disse. Não tenho esse super poder, não posso salvar ninguém. Só queria salvar a mim mesma e talvez um dia eu consiga. Mas salvar outra pessoa, não sei, não sou capaz.

Dizer isso em voz alta me deu uma tristeza enorme, como um buraco no peito. Você se calou, mesmo quando percebeu que eu esperava um conselho mágico, uma fórmula secreta que só você sabia. Mas nunca houve fórmulas. A fórmula é estar aqui com você. Em um mundo tão nosso e tão distante de tudo aquilo lá fora. Longe das guerras e das pessoas que se devoram com palavras. Você é a calma no centro do caos.

Ficar sozinha dá medo, eu sei

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Me senti uma estúpida quando percebi, já dentro do vagão, que havia esquecido meu celular com você. Sim, uma estúpida. Porque depois de um domingo lindo com a melhor pessoa ao meu lado, eu saí correndo sem me despedir – sem sequer olhar para trás – só para não me sacrificar passando dez minutos a mais na estação esperando o próximo metrô. E você parou, no meio da escada, me observando partir. Nem se assustou, já tinha se acostumado aos meus rompantes desesperados, meus atos impensados de estupidez e meu jeito avoado de esquecer um pedacinho de mim por todo lugar.

Quando olhei para trás a porta se fechou e te perdi de vista. Bastaram uns cinco segundos para que eu percebesse a consequência da minha pressa e da minha cabeça oca. Eu havia deixado meu celular no bolso dos seus jeans. Não me desesperei. Pensei que seria fácil, era só voltar uma estação e te encontrar. Mas eu não consegui te pedir para me esperar – afinal, estava incomunicável. E quando eu consegui voltar à estação em que devíamos ter nos despedido, notei, decepcionada, que você não estava mais lá.

Aí veio o desespero. A tristeza e a solidão. Junto com a constatação de que você sequer tinha se lembrado do meu celular e que já devia estar bem longe pelas linhas do metrô, talvez chegando em casa. Não me entenda errado, o sofrimento não era pelo objeto em si. É que você me acostumou muito mal e eu cheguei a acreditar que – como se o mundo todo girasse em torno do meu glorioso umbigo – você esperaria por mim, pacientemente, com meu celular na mão.

Naquela hora me veio uma sensação estranha, uma espécie de abandono combinado com todas as frustrações de uma vida. Que nem quando a gente segura o choro o dia inteiro e de repente acontece uma coisinha idiota que nos faz transbordar em lágrimas. E aí as pessoas te perguntam o porquê de você estar chorando por uma coisa tão pequena, e você só quer explicar para elas que não é só isso, que é tudo e muito mais. Que é um monte de coisa acumulada que não coube mais dentro do peito. Um monte de coisa que transbordou e fez a maior bagunça, porque chorar é quando a gente transborda.

Olhei em volta e me vi sozinha em um lugar cheio de gente. E olha, nunca tive problemas em ficar sozinha. Não antes de você. Me acostumei tanto à sua presença que, naquele momento, o fato de você não estar ali parecia o fim do mundo. E eu chorei como uma menininha, porque bem lá no fundo é o que eu ainda sou. Desamparada, vulnerável, perdida, fraca e pequena naquela cidade de gigantes. Sem você.

Depois de alguns minutos, o metrô da viagem de volta pra casa chegou. Limpei as lágrimas apressadamente e entrei no vagão rumo ao meu lar, tomando o cuidado de não transparecer a ninguém os meus dramas pessoais. Ao mesmo tempo em que tentava interpretar o meu papel de moça adulta, me sentia uma imbecil por isso.

Cheguei em casa, comi um pedaço de bolo de aniversário que há dias estava na geladeira. Resolvi ser mais otimista e aos poucos fui me recuperando do “trauma”, assim como costumam terminar todas as outras cenas dramáticas do filme da minha vida. Foi quando escutei a sua voz me chamando do portão. Desci as escadas correndo, sem acreditar. Era você, na porta da minha casa e com um celular na mão. Era você, depois de ter atravessado a cidade para me encontrar. Depois de um dia cheio e quando já devia estar em casa, era você ali em uma noite de domingo. Na porta da minha casa só para me entregar um maldito celular. Você.

Tive vontade de te socar e de te beijar ao mesmo tempo. Você nunca vai me abandonar mesmo, né? Te achei tão bobo e te amei muito mais.

Momentos feitos de quases

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Hoje foi um dia comum. Acordei no horário de costume, fiz todas as minhas obrigações diárias, enfim. Quando o dia escurecia, eu me preparava para me despedir dele. Foi um dia comum, exceto por uma coisa: um momento. Ou talvez tenha sido mais a maneira como isso aconteceu. O modo como você olhou pra mim, e eu olhei pra você. O modo como nos olhamos e de repente estava tudo ali.

Seu olhar curioso a ponto de me desarmar, de me desvendar. E meu sorriso, contido nos lábios e escapando pelos olhos, só por te ver.

A gente sentiu um quase frio na barriga, um quase aperto no coração, um quase sentir. Me dei conta de estar quase apaixonada. Ás vezes acontecem dessas coisas malucas. Momentos assim que, mesmo tendo durado milésimos de segundo, perduram na memória por horas, dias, anos. Se repetindo milhares de vezes em nossas cabeças. Mesmo que nunca se repitam, mesmo que não venham acompanhadas de planejamentos, mas sim de intenções fantasiosas, esses momentos marcam. Persistem. Como uma queda gostosa em um brinquedo de parque de diversões. É gostoso e perigoso, mas acaba rápido.

Ás vezes acontece o inevitável. A mágica é tão forte que nos agarramos às lembranças, por mais simples que sejam. E criamos esperanças, por mais absurdas que pareçam. Então não se deixe esquecer de mim, meu bem. Me prenda na sua memória. Me procure, me queira e me tenha. E sinta de novo o que a gente quase sentiu naquele momento. Naquele momento em que eu quase te amei e, lá no fundo, quase doeu.

Cachorro solto

Por que é que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga.” C. Lispector

Chase em:

Um cão de rua rosnou para mim, atrevido. Andava como se pulasse, olhava como se adivinhasse. Era de um pêlo tão preto, que até brilhava à luz do sol. Me viu parada o observando e latiu, como quem diz “Sai da minha frente!”. Remexeu as folhas secas, farejou os portões das casas, correu de um lado para o outro. Sumiu e reapareceu – várias vezes.

Era pequeno, mas de repente resolveu seguir um homem que carregava uma mala enorme. Sabe-se lá pelo quê procurava, mas para mim parecia estar o tempo todo em busca de uma nova aventura. O vira-lata sempre mantinha a língua fora da boca, mas eu interpretei aquilo como um sorriso.

Sumiu de novo. Achei que tinha partido de vez. Até que apareceu, cinco minutos depois, descendo o morro em velocidade. Veio saltitante e sorridente, me dizendo com os olhos o quanto era feliz, o quanto era livre. E o quanto me desprezava por eu ser uma mera humana que transbordava de expectativas frustradas, enquanto ele, só tinha a obrigação de sobreviver.

“Paz deve ser isso”, pensei.

De repente neurótica

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Ei, eu sei que dou uma sumida às vezes, mas que tal se você viesse passear por aqui? Hoje, amanhã, ou em uma noite de domingo – eu queria mesmo era te ver sorrindo.

Que tal se você precisasse um pouquinho mais da minha atenção? Imagina se de repente eu chego em casa, cansada de não fazer nada, e (surpresa!) encontro você – na minha cama de solteiro. Me esperando, um dia inteiro.

Não faz mal, meu bem, você tentar fingir que não tá nem aí. Que nem gosta de mim tanto assim. Porque eu também finjo, o tempo todo – você não sabe, mas sou a maior fingidora de sentimentos de todas.

Eu sinto você sentindo a minha falta e sentindo que eu também sinto saudades de ser só nós. Saudade daqueles momentos em que a gente sente tudo e não sabe de mais nada – porque todo o resto já é página virada.

Saudade de não saber o que fazer, mas agir. E de não querer falar, mas sorrir. Porque os nossos silêncios já são tão barulhentos e os nossos malditos olhares nos denunciam o tempo todo. Das nossas bocas só saem mentiras, mas quais palavras vão importar agora que eu só penso em sentir seu cheiro de novo? E quase sinto, quando fecho os olhos e lembro daquele dia em que você me abraçou tão forte que eu quase me afundei no seu moletom quentinho.

O que mais me irrita é essa sua calma meio “relaxa que vai dar tudo certo”. Mas deixa eu te contar: eu não sei relaxar. Eu sou neurótica. E mesmo assim, adoro o seu jeitinho discreto-desinteressado de garoto blasé meio galã de novela, sabe? Não, você não sabe. É o seguinte: você me irrita e ao mesmo tempo me faz bem.

Eu nunca saberia lidar com alguém que resolvesse gritar aos quatro ventos o que sente. Eu fugiria, com certeza. “Você é escorregadia, geminiana”, foi o que li num desse sites de horóscopo. Mas você me deixa tão livre que eu sempre quero voltar. E mesmo sem saber, me deixa totalmente no escuro quando resolve não me procurar. Só pra me provocar. Só pra me enlouquecer. A ansiedade me comendo por dentro (e eu comendo a geladeira inteira).

Você não sabe se vai ou se fica e eu observo o jogo virando o tempo todo. De repente eu virei a cabra-cega dessa brincadeira. De repente eu me apaixonei. E nesse jogo não tem lei.

Aline e Aline: um diálogo

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Aline encostou a cabeça no vidro do ônibus e respirou fundo pela décima quarta vez. É duro ser sozinha. É duro querer carregar o peso do mundo nas costas e não receber recompensa por isso. Aline era sozinha. E não entenda mal o sentido da palavra. Tinha muitos amigos, é claro, e até um namorado. E também uma família grande – com direito a bichinhos de estimação. Mas ainda sim, era sozinha. Simplesmente por se sentir, por se considerar nessa posição.

Gostava de pensar em si mesma assim: uma aventureira pelo mundo, um espírito livre e vagante, a heroína de um romance. Mas especialmente nesse dia em que o sol estourava no céu sem nuvens e o cabelo pregava de suor na nuca, ela desejava que chovesse forte – pois achava que um clima nublado ficaria mais poético no filme da sua vida – e se perguntava quando poderia ser considerada (oficialmente) uma adulta. Já tinha vinte anos e poucas coisas haviam mudado desde os dezoito. Ainda morava com os pais, mas tudo bem, porque muitos de seus amigos também moravam. E também não ajudava com as despesas da casa. Até aí as coisas não iam tão mal, em breve arrumaria um emprego temporário, e depois outro emprego melhor, e depois… E depois?

Não eram as opiniões do “mundo dos adultos” que a incomodava. O que fez uma lágrima cair e se misturar com o suor do seu rosto enquanto escutava The Smiths, foi outro tipo de preocupação. Preocupava-se com a Aline de cinco, de dez anos atrás. O que ela diria se a visse agora? Será que aprovaria seu comportamento? Será que se decepcionaria? Era tão ambiciosa, a coitadinha. Engolia o mundo com os olhos. Queria tudo, queria mais do que tudo. Será que ela esperava mais da Aline “versão adulta”?

“Muito provavelmente”, concluiu a mulher (em formação).

Lembrou-se da menina ingênua que era. Ainda aos quatorze achava que um dia seria uma estrela do rock. Mesmo não sabendo tocar nenhum instrumento. Mas o tempo passou tão rápido… E continuaria a passar cada vez mais. Nenhum tempo de vida humana lhe parecia suficiente para tantas vontades, para tudo que guardava dentro de si.

Suspirou mais duas vezes e limpou as lágrimas. Decidiu que a Aline de dez anos atrás acharia que a Aline de agora não deveria chorar na frente dos outros adultos. Deveria ser forte, erguer a cabeça e seguir em frente.

“Ok, em frente. Mas para onde é em frente, exatamente?” pensou, e era quase como se perguntasse para sua pequena amiga. Era quase como se implorasse por uma resposta.

“Em frente é até onde o seu coração mandar.”, respondeu a mini-Aline.

“Você deve ter razão. Você era muito mais sábia do que eu sou agora, afinal.”

Aline não se sentia mais tão sozinha. Tinha a si mesmo e, ás vezes, isso é tudo o que a gente precisa.

O amor é uma bobagem

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Hoje eu estava lembrando daquele dia em que eu quebrei meu pé e meu coração por você. Eu tinha bebido demais e inventei de fazer qualquer gracinha para te impressionar, mas tropecei e caí. Fui para casa carregada pelos meus amigos que acharam que o meu choro tinha a ver com a lesão e o inchaço, mas o que mais doía mesmo era meu coração. O aperto no peito durou alguns dias.

Tive bastante tempo pra curtir a fossa, já que só ficava em casa por recomendações médicas e tendo como única companhia as minhas muletas. Lembro que foi por esses dias que assisti ao filme da Frida Kahlo e chorei horrores, achando a minha vida tão difícil quanto a dela e me sentindo a maior vítima dos acasos do universo. Bobagem. Com o tempo a gente aprende que um coração quebrado cura mais rápido e melhor do que um tendão lesionado.

Foi assim que eu lembrei disso hoje. E lembrei de todos os amores que já tive e de todas as vezes em que eu achei que nunca mais fosse amar de novo. Do quanto eu sofri encolhida na cama, soluçando muito e prometendo a mim mesma que era a última vez que um babaca como aquele me faria chorar. E não foi. Lembrei dos meus quatorze anos, quando eu me apaixonei por um loirinho que nem sabia o meu nome. E nem sabia das tantas vezes que o nome dele aparecia no meu diário e nem do sonho que eu tive, em que ele me abraçava forte e prometia nunca me abandonar.

Também estou lembrando daquele cara que conheci mês passado e de como achei que a gente tinha uma conexão telepática-fisico-espiritual, e que dessa vez podia dar certo. Mais bobagens, eu suponho. Bobagens das quais não me arrependo, nem de ter vivido, nem de ter sonhado. Bobagens sem sentido, mas com toda a razão que uma paixão pode ter. E o que seria da vida sem as paixões? O que seriam das paixões sem as bobagens?

Eu só sei que eu prefiro mil vezes um coração partido a um vazio. A gente tem que correr riscos, tentando, amando e quebrando a cara. E não importa se a gente tem quatorze, vinte e três, ou cinquenta e quatro anos. Sempre vai ter alguém que pode tirar o seu chão só por não estar por perto. E a isso chamamos bobagem. Ops, amor.