É preciso falar dessa saudade

Rosquinhas, café com leite, bolo de farinha de trigo e pão de queijo – feitos com ovos a menos, que é pra economizar. Biscoitinhos que derretem na boca e café amargo. Queijo caseiro de leite mineiro da roça, marcado com a textura do pano de prato em que foi embrulhado antes de ficar pronto. Doce de leite, biscoito frito, pão sovado – duro, de tanto ficar guardado no armário. Doce de mamão eu não comia, achava que era ruim sem nunca ter experimentado (que arrependimento!). E não almoçava quase nada, preferia me empanturrar com os lanches de casa de vó, cheios de doçuras e mineirices. Minhas tardes se resumiam a várias colheres de doce, assim como o bolo e as rosquinhas com manteiga que ela levava ao sofá em um pratinho. Especialmente para mim. Dizem que é assim que se cria uma criança mimada. Para mim só podia significar uma coisa: carinho.

Eu e vovó passávamos tardes inteiras assistindo a programas de auditório e novelas mexicanas na TV (A Usurpadora etc). Ás vezes ela me pedia para ir correndo pegar um papel e uma caneta e anotar os números da Tele Sena, na qual metade do seu dinheiro era gasto. A outra metade ia para os cigarros.

De manhã, eu tinha oficialmente – como um acordo silencioso entre nós duas – o direito e a posse sobre o controle remoto da televisão. Afinal, era a hora dos desenhos animados. Só na casa da vovó é que eu podia assistir a Tom & Jerry, Pernalonga, Papa-Léguas, Piu-Piu e Frajola e outros tantos que minha mãe não deixaria por considerá-los nocivos para a formação de uma criança. Enquanto isso, vovó escutava a missa do Padre Marcelo Rossi no rádio e depois vinha trazendo água benta para que eu bebesse. Aí eu dava um golinho de nada e ela reclamava:

– Bebe tudo que essa água é de Deus! Vai te fazer bem!

E quando eu esquecia dos desenhos infantis e decidia explorar o jardim, ela gritava meu nome lá da sala de televisão:

– Vem ver o filminho! Começou o filminho!

Eu corria até lá e a encontrava sozinha na sua poltrona preferida, bem de frente para a TV. Eu deitava no meu lugar de sempre e assim compartilhávamos horas e horas do mundo mágico que havia dentro daquela caixinha chamada televisão.

Sinto falta do estalo que ela fazia com a boca quando queria tirar alguma sujeira do dente e que, com o tempo, acabou virando mania. Um jeito de que eu soubesse que ela estava por perto, ou pelo menos era assim que eu identificava a sua presença. Era isso e o arrastar de chinelos. Sinto falta do gesto que ela fazia ao ajeitar o topete e reclamar que precisava pintar o cabelo de novo. Ou as unhas, que quase sempre mantinha em cor de rosa choque. Era vaidosa, mas quase não saía de casa, a não ser em ocasiões muito especiais como casamento ou aniversário de alguém da família.

Na festa de aniversário de um ano do meu irmão, eu e minha mãe convidamos a vovó e o vovô – então divorciados e praticamente sem se ver há, pelo menos, vinte anos. Vovó apareceu na festa toda maquiada, de salto e joias. Todos repararam no clima. Meu avô, todo sem graça. Minha avó, muito emperiquitada. Acredito que, como não se viam a muito tempo, não sabiam como o outro ia parecer. Em determinado momento, ela chegou do meu lado e disse baixinho:

– Nossa, seu avô tá um caco! Envelheceu demais, credo!

Era áspera nas palavras e doce nas atitudes. Acho que herdei isso dela.

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Quando foi que eu parei de me aventurar?

 

Sempre sonhei em viver grandes aventuras. Quando pequena eu era às vezes super-heroína, às vezes estrela do rock. No tempo livre gostava de me esgueirar por lugares perigosos – ou nem tanto – para cumprir mais uma das minhas missões de super espiã meio ninja/meio gênio da tecnologia. No fim da noite eu dormia olhando para a janela, e sonhava com o dia em que Peter Pan viria me buscar e me levaria à Terra do Nunca. O rei dos meninos perdidos era meu príncipe encantado, a Terra do Nunca era o meu castelo de contos de fadas. Viver entre sereias, piratas e fadas, cada dia uma aventura e ainda por cima ser criança para sempre! Era tudo que eu queria.

A gente cresce e para de fantasiar. A gente cresce e sabota nossas próprias ideias e loucuras, das quais talvez pudesse brotar o mais alto pé de feijõezinhos coloridos. A gente cresce e se esquece de que um dia fomos crianças. Ou seja, nos esquecemos de quem realmente somos sem essa carga de moralidade e valores impostos que somos obrigados a ir carregando ao longo da vida.

Desde que cresci, ando com esse medo terrível de me arriscar. De sonhar alto demais e não corresponder às minhas próprias expectativas. Medo das aventuras pelas quais sempre esperei. Medo de dar a cara à tapa, de errar, de ouvir um não, de seguir meus instintos. Queria saber ser mais impulsiva, mais aventureira. E sem ficar constrangida por qualquer motivo. Queria saber exteriorizar a força que tenho dentro de mim, a minha imaginação e as milhares de ideias malucas que tenho todos os dias. Queria conseguir falar “eu te amo” quando tenho vontade, ou pedir perdão sem deixar falhar a voz. Queria saber mostrar para o mundo o que sei que sou capaz, mas que escondo por puro medo.

As experiências – e até os erros – são os maiores responsáveis pelo nosso crescimento. Todo mundo sabe disso, mas pouca gente se permite arriscar e, consequentemente, ser feliz. Ser criança de novo é lembrar-se do seu verdadeiro eu. A sabedoria destas pequenas é tão subestimada por nós, que tapamos os olhos para as verdades que os pirralhos nos dizem o tempo todo. Chega um ponto no qual nos é cobrado que sejamos adultos. O que, quase sempre, significa ter emprego, dinheiro, independência e responsabilidade. Mas onde fica a diversão nessa história toda? A aventura, o frio na barriga, a imaginação…Essas coisas se perdem no meio do caminho.

Não deixe que isso aconteça. Talvez já tenha acontecido a você, mas nunca é tarde para se recuperar a inocência de viver intensamente. Escrevo esse texto porque às vezes, nos dias ruins, percebo esse sentimento infantil se esvaindo lentamente de mim. Escrevo esse texto com conhecimento de causa. Com as crianças aprendi muitas coisas, entre elas a pura sinceridade e a coragem de fazer qualquer coisa, desde que seja divertido. E por isso me nego, sempre, a deixar de ser uma delas. A deixar de me aventurar. Tenho 21 anos e vou ser criança para sempre.

E você? Qual foi a última vez que se aventurou?