A moça do escritório

Imagem de girl

Queria entender porque as pessoas são sempre tão mesquinhas. Porque se preocupam com as coisas menos importantes. Porque esqueciam que ela estava ali sozinha, e de todas as outras pessoas que estavam nos seus respectivos cantos, sozinhas. Em seus cantos nem sempre tão aconchegantes.

Escrevia na esperança de jogar fora aquela sujeira e escrevia na esperança de que alguém lesse – e de que isso talvez pudesse mudar o mundo. E as frases corriam e escorriam em sua mente, escapuliam por entre os dedos nervosos que batiam com pressa nas teclas e faziam um barulho enorme ao imprimirem as letras da máquina de escrever. Não havia back space naquele dia. E o que ela escrevia, as teclas que pressionava, estariam gravadas para sempre.

Daqui um ano, talvez, tudo fosse diferente. Alguém leria aquelas bobagens escritas erradas por causa da pressa e da quantidade de nível alcoólico no sangue e se perguntaria “Ora, quem escreveu isso? Em que mundo essa pessoa vivia?”. E todos ao redor ririam satisfeitos segurando seus copos de Whisky e fumando seus charutos, contentes com a nova piada da vez. A moça abaixaria a cabeça e omitiria o fato de ser o motivo daquela piada. Porque nada havia mudado e aqueles tolos sequer percebiam. Não percebiam que viviam todos exatamente como há cinquenta anos, porém com trajes diferentes. A moda muda, as pessoas continuam podres por dentro. É como um livro com várias edições, com a exceção de que a a gente sempre aprende mais com os livros.

Pegou seu copo de Whisky e tomou um gole caprichado. Sentiu um arrepio e se perguntou porque tomava aquilo. Mais uma moda? O gosto era horrível e a bebida deixava seu corpo mole, incapaz de raciocinar – ou teclar – com clareza. Queria que inventassem uma caneta conectada ao pensamento, cadê a praticidade toda da coisa? Seria fácil vender, basta dizer que não precisariam fazer nenhum esforço. Ninguém quer fazer esforço. Nem por si mesmo.

E quis dormir. Bebeu mais um gole generoso, digitou sua última frase – já que o álcool deixara seus dedos fracos também -, se debruçou ali mesmo, sobre a mesa do seu “escritório improvisado” e dormiu. Porque atualmente era o que lhe deixava feliz, estar dentro de si e dos seus pesadelos era menos aterrorizante do que viver no mundo real.

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Uma noite mais preta do que café

Imagem de cigarette, coffee, and smoke

Em uma noite de lua nova, estava eu e minha companheira inseparável – uma xícara de café, pronta para adoçar e amargar a vida – mergulhadas nos cantos mais recônditos da imaginação, juntas nas horas mais sombrias, como de costume. Foi quando ouvi um barulho estranho. A princípio, imaginei que fosse o efeito da cafeína, que provavelmente já era mais presente no meu sangue do que os próprios glóbulos vermelhos. Fiquei alerta por alguns segundos, mas o silêncio se instaurou novamente.

Gosto muito de ficar assim, no escuro do meu canto. Com todas as cortinas fechadas durante o dia, e com a vista do céu estrelado à noite. O vento frio entrando, o barulho de poucos carros lá fora, às vezes o grito de algum bêbado. Mas nesta noite, em especial, o silêncio era quase absoluto. A única coisa que eu ouvia eram os meus dedos batendo no teclado do computador e, por um instante, aquele som. Já tinha esquecido, não me preocupava. Pelo menos não me preocupou até surgir de novo, de dentro do vazio, aquele barulho metálico. Dessa vez mais forte e mais irritante. E depois parou.

Resolvi fazer o que qualquer pessoa em sã consciência – e que acabou de ouvir um barulho estranho quando está sozinha em casa – faria. Liguei a televisão. Estava sendo transmitido o show do Metallica. Ótimo. Aumentei o volume e disse para mim mesma que era porque eu amava aquela música. Beleza. Tudo sob controle. Alguns minutos assim quando de repente ouço alguma coisa bem grande cair na cozinha. Puta que me pariu. Foi só uma panela, o meu lado sensato disse, tentando me tranquilizar. A xícara na minha mão já estava vazia. Chega de café, pensei. Daqui a pouco vou ter que ir para a clínica de reabilitação. Overdose e fortes delírios depois de sete xícaras cheias de café.

Eu precisava ir até a cozinha deixar a xícara. Na verdade, eu não precisava não. Mas eu queria ir, porque poderia ter um rato perambulando por lá. Ou um ladrão, ou um monstro, ou um disco voador. E como mulher adulta e responsável, dona de casa e solteira, eu tinha o dever de defender o meu lar.

Cheguei na cozinha com a xícara na mão e o coração na boca. Pé ante pé, fui abrindo caminho entre armários e vasilhas. Minha cozinha nunca foi tão grande e escura quanto nesses longos minutos. Acendi a luz e fechei os olhos, me sentindo estúpida. E então ouvi um miado, mais agudo e mais arrastado do que qualquer outro que já tivesse ouvido. Abri os olhos, olhei para a janela e respirei, surpresa e aliviada: Dois olhos verdes e felinos me encaravam, mas não eram olhos de nenhum monstro ou fera bestial. Era um filhote de gato que tinha surgido de algum lugar e entrado na cozinha pela janela aberta. Estava ainda mais assustado do que eu. Bem pequenininho e estabanado, já tinha derrubado um monte de utensílios e se preparava para fugir quando me ouviu chegar.

-Não foge não, neném! Vem cá…

Olhou para mim, superior e delicado, e pensou quinhentas vezes se valia mesmo a pena confiar naquela humana. Mas ao poucos, acabou cedendo. Veio em passos lentos e alguns minutos depois já estava aninhado no meu colo. Era uma bolotinha preta que continha duas esmeraldas verdes na cara, a princípio desconfiadas – como deve ser um gato que se preze – e depois muito acolhedoras. Tão acolhedoras que, a partir daí, foram acolhidas como as pedras mais preciosas daquele meu mundinho escuro regado a café.

E pode até ser que você ainda não tenha se convencido de que não tinha mesmo nada de ameaçador na minha cozinha. Pode ser também que você seja uma daquelas pessoas cheias de preconceitos contra gatos pretos de esmeraldas verdes na cara. Mas uma coisa eu posso lhe garantir: Depois dessa noite, eu, a xícara e a bolotinha preta vivemos felizes para sempre. Ou pelo menos por um tempo.