Escrever até o fim, sem ponto final

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Escritor tem pensamentos em prosa, palavras que precisam ser escritas antes de serem ditas. A necessidade de escrever é um bichinho inquieto, uma vozinha que sussurra no ouvido versos sobre pequenos detalhes do cotidiano. Todo escritor é um romântico à moda antiga, um sonhador. Ao invés de falar o que sente,  ele prefere derramar em segredo seus sentimentos no papel. Pensa mil vezes antes de dizer algo, e muitas vezes acaba não dizendo. Mas não fica engasgado: Faz uma poesia.

A escrita não é nenhuma dádiva de Deus. É sangue e suor, e muitas vezes é a única alternativa. Alguns escrevem porque só sabem fazer isso, outros porque querem ajudar alguém de alguma forma, outros só para se sentirem melhor. Uma coisa é fato: Quem escreve se organiza, se entende e se conhece muito mais. O texto é uma descoberta, de si mesmo e do mundo. Isso porque escrever é abrir caminho para um universo de infinitas possibilidades – e poder levar outras pessoas junto. Escreve-se algo que não deveria passar despercebido, escreve-se para gravar na história um sentimento (ou um diálogo, ou uma pessoa), escreve-se desesperadamente quando não há outro meio de expressar a vastidão de ser humano.

Como reconhecer uma alma de escritor: Pode ser um sujeito aparentemente calmo e reservado, ou pode ser um bêbado cínico. Muitas vezes pode parecer frio, mas não se engane. Escritor é um ser sensível, não sentimental. Escritor é, antes de tudo, observador. É um curioso ávido pela vida, um admirador das pessoas e da natureza, um ser misterioso – até perigoso, eu diria. Um escritor tem vários “eus” dentro de si e inúmeras aventuras a viver. Porém, por mais que eu tente desvendar o olhar de quem escreve, estou certa de que a melhor definição seja mesmo a de Drummond: “Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.”

Feliz Dia do Escritor!

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O balanço dos velhos

O velho trocador de ônibus que nunca sonhou em ser trocador de ônibus observava atento a qualquer movimento. As horas corriam despercebidas dentro dele, o vento arejando os pensamentos. Os outros velhos – passageiros da dianteira do ônibus – se balançavam no ritmo dos quebra-molas.

Um deles tinha uma postura que deixava dúvidas se era fisicamente corcunda ou só envergada pelo peso do tempo. Quando não estava olhando para baixo, estava olhando de baixo – mas sempre com curiosidade. A sua idade também não era clara. Podia ter de 60 a 80 anos, tudo depende do que viveu e do quesito estar ou não estar “bem conservado”. Eu me lembro de ser criança e escutar os adultos falarem a respeito dos velhos.

–  Aquela ali está acabada, coitada…

– Nem me fale! Mas aquele outro está até bem conservado. Quer dizer, para a idade, não é mesmo?

– Sim, é um coroa muito enxuto.

De qualquer forma, não era o caso desse senhor em particular. Inclusive, olhando de relance poderia até se pensar que se tratava de um morador de rua. Talvez pelo modo suplicante de olhar, pela postura de quem se retira da sociedade por acreditar não ter mais espaço ali. O homem era quase um bufão em fim de carreira, um Quasímodo decadente.

O ônibus parou e subiu um outro senhor, de camisa social e gravata, pasta de couro e cabelo grisalho. Era um homem de negócios e, esse sim, um senhor “enxuto”. Tinha a expressão cansada de quem trabalhou o dia inteiro. Não cansada da vida, como o outro. Mesmo sendo tão distintos, os dois pareciam ter a mesma idade.

O homem de negócios era mais alto e despertou o olhar de admiração do velho corcunda assim que pisou no ônibus. Passou a encará-lo quase com idolatria, o que deixou o homem desconfortável. Este evitou o olhar, tentou fingir naturalidade e, por mais que tentasse, não conseguia deixar de sentir um misto de asco e pena daquele velho esquisito. Por fim, resolveu passar pela roleta – mesmo não precisando – e ir para a parte de trás do ônibus, para bem longe daquela criatura estranha. Criatura esta que o acompanhou com o olhar até que sumisse no meio da multidão, porque ônibus lotado e multidão é a mesma coisa.

Ainda insistiu, por alguns instantes, em procurar o senhor de negócios: queria invejá-lo, admirá-lo, imaginar o que é que ele tinha feito de diferente para estar ali. Mas não o encontrou mais, tão cheio o transporte. E então se conformou. E voltou a fitar o vazio.

Por não estarem distraídos

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Clarice Lispector

 Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Ficar sozinha dá medo, eu sei

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Me senti uma estúpida quando percebi, já dentro do vagão, que havia esquecido meu celular com você. Sim, uma estúpida. Porque depois de um domingo lindo com a melhor pessoa ao meu lado, eu saí correndo sem me despedir – sem sequer olhar para trás – só para não me sacrificar passando dez minutos a mais na estação esperando o próximo metrô. E você parou, no meio da escada, me observando partir. Nem se assustou, já tinha se acostumado aos meus rompantes desesperados, meus atos impensados de estupidez e meu jeito avoado de esquecer um pedacinho de mim por todo lugar.

Quando olhei para trás a porta se fechou e te perdi de vista. Bastaram uns cinco segundos para que eu percebesse a consequência da minha pressa e da minha cabeça oca. Eu havia deixado meu celular no bolso dos seus jeans. Não me desesperei. Pensei que seria fácil, era só voltar uma estação e te encontrar. Mas eu não consegui te pedir para me esperar – afinal, estava incomunicável. E quando eu consegui voltar à estação em que devíamos ter nos despedido, notei, decepcionada, que você não estava mais lá.

Aí veio o desespero. A tristeza e a solidão. Junto com a constatação de que você sequer tinha se lembrado do meu celular e que já devia estar bem longe pelas linhas do metrô, talvez chegando em casa. Não me entenda errado, o sofrimento não era pelo objeto em si. É que você me acostumou muito mal e eu cheguei a acreditar que – como se o mundo todo girasse em torno do meu glorioso umbigo – você esperaria por mim, pacientemente, com meu celular na mão.

Naquela hora me veio uma sensação estranha, uma espécie de abandono combinado com todas as frustrações de uma vida. Que nem quando a gente segura o choro o dia inteiro e de repente acontece uma coisinha idiota que nos faz transbordar em lágrimas. E aí as pessoas te perguntam o porquê de você estar chorando por uma coisa tão pequena, e você só quer explicar para elas que não é só isso, que é tudo e muito mais. Que é um monte de coisa acumulada que não coube mais dentro do peito. Um monte de coisa que transbordou e fez a maior bagunça, porque chorar é quando a gente transborda.

Olhei em volta e me vi sozinha em um lugar cheio de gente. E olha, nunca tive problemas em ficar sozinha. Não antes de você. Me acostumei tanto à sua presença que, naquele momento, o fato de você não estar ali parecia o fim do mundo. E eu chorei como uma menininha, porque bem lá no fundo é o que eu ainda sou. Desamparada, vulnerável, perdida, fraca e pequena naquela cidade de gigantes. Sem você.

Depois de alguns minutos, o metrô da viagem de volta pra casa chegou. Limpei as lágrimas apressadamente e entrei no vagão rumo ao meu lar, tomando o cuidado de não transparecer a ninguém os meus dramas pessoais. Ao mesmo tempo em que tentava interpretar o meu papel de moça adulta, me sentia uma imbecil por isso.

Cheguei em casa, comi um pedaço de bolo de aniversário que há dias estava na geladeira. Resolvi ser mais otimista e aos poucos fui me recuperando do “trauma”, assim como costumam terminar todas as outras cenas dramáticas do filme da minha vida. Foi quando escutei a sua voz me chamando do portão. Desci as escadas correndo, sem acreditar. Era você, na porta da minha casa e com um celular na mão. Era você, depois de ter atravessado a cidade para me encontrar. Depois de um dia cheio e quando já devia estar em casa, era você ali em uma noite de domingo. Na porta da minha casa só para me entregar um maldito celular. Você.

Tive vontade de te socar e de te beijar ao mesmo tempo. Você nunca vai me abandonar mesmo, né? Te achei tão bobo e te amei muito mais.

Momentos feitos de quases

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Hoje foi um dia comum. Acordei no horário de costume, fiz todas as minhas obrigações diárias, enfim. Quando o dia escurecia, eu me preparava para me despedir dele. Foi um dia comum, exceto por uma coisa: um momento. Ou talvez tenha sido mais a maneira como isso aconteceu. O modo como você olhou pra mim, e eu olhei pra você. O modo como nos olhamos e de repente estava tudo ali.

Seu olhar curioso a ponto de me desarmar, de me desvendar. E meu sorriso, contido nos lábios e escapando pelos olhos, só por te ver.

A gente sentiu um quase frio na barriga, um quase aperto no coração, um quase sentir. Me dei conta de estar quase apaixonada. Ás vezes acontecem dessas coisas malucas. Momentos assim que, mesmo tendo durado milésimos de segundo, perduram na memória por horas, dias, anos. Se repetindo milhares de vezes em nossas cabeças. Mesmo que nunca se repitam, mesmo que não venham acompanhadas de planejamentos, mas sim de intenções fantasiosas, esses momentos marcam. Persistem. Como uma queda gostosa em um brinquedo de parque de diversões. É gostoso e perigoso, mas acaba rápido.

Ás vezes acontece o inevitável. A mágica é tão forte que nos agarramos às lembranças, por mais simples que sejam. E criamos esperanças, por mais absurdas que pareçam. Então não se deixe esquecer de mim, meu bem. Me prenda na sua memória. Me procure, me queira e me tenha. E sinta de novo o que a gente quase sentiu naquele momento. Naquele momento em que eu quase te amei e, lá no fundo, quase doeu.

Cachorro solto

Por que é que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga.” C. Lispector

Chase em:

Um cão de rua rosnou para mim, atrevido. Andava como se pulasse, olhava como se adivinhasse. Era de um pêlo tão preto, que até brilhava à luz do sol. Me viu parada o observando e latiu, como quem diz “Sai da minha frente!”. Remexeu as folhas secas, farejou os portões das casas, correu de um lado para o outro. Sumiu e reapareceu – várias vezes.

Era pequeno, mas de repente resolveu seguir um homem que carregava uma mala enorme. Sabe-se lá pelo quê procurava, mas para mim parecia estar o tempo todo em busca de uma nova aventura. O vira-lata sempre mantinha a língua fora da boca, mas eu interpretei aquilo como um sorriso.

Sumiu de novo. Achei que tinha partido de vez. Até que apareceu, cinco minutos depois, descendo o morro em velocidade. Veio saltitante e sorridente, me dizendo com os olhos o quanto era feliz, o quanto era livre. E o quanto me desprezava por eu ser uma mera humana que transbordava de expectativas frustradas, enquanto ele, só tinha a obrigação de sobreviver.

“Paz deve ser isso”, pensei.

Aline e Aline: um diálogo

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Aline encostou a cabeça no vidro do ônibus e respirou fundo pela décima quarta vez. É duro ser sozinha. É duro querer carregar o peso do mundo nas costas e não receber recompensa por isso. Aline era sozinha. E não entenda mal o sentido da palavra. Tinha muitos amigos, é claro, e até um namorado. E também uma família grande – com direito a bichinhos de estimação. Mas ainda sim, era sozinha. Simplesmente por se sentir, por se considerar nessa posição.

Gostava de pensar em si mesma assim: uma aventureira pelo mundo, um espírito livre e vagante, a heroína de um romance. Mas especialmente nesse dia em que o sol estourava no céu sem nuvens e o cabelo pregava de suor na nuca, ela desejava que chovesse forte – pois achava que um clima nublado ficaria mais poético no filme da sua vida – e se perguntava quando poderia ser considerada (oficialmente) uma adulta. Já tinha vinte anos e poucas coisas haviam mudado desde os dezoito. Ainda morava com os pais, mas tudo bem, porque muitos de seus amigos também moravam. E também não ajudava com as despesas da casa. Até aí as coisas não iam tão mal, em breve arrumaria um emprego temporário, e depois outro emprego melhor, e depois… E depois?

Não eram as opiniões do “mundo dos adultos” que a incomodava. O que fez uma lágrima cair e se misturar com o suor do seu rosto enquanto escutava The Smiths, foi outro tipo de preocupação. Preocupava-se com a Aline de cinco, de dez anos atrás. O que ela diria se a visse agora? Será que aprovaria seu comportamento? Será que se decepcionaria? Era tão ambiciosa, a coitadinha. Engolia o mundo com os olhos. Queria tudo, queria mais do que tudo. Será que ela esperava mais da Aline “versão adulta”?

“Muito provavelmente”, concluiu a mulher (em formação).

Lembrou-se da menina ingênua que era. Ainda aos quatorze achava que um dia seria uma estrela do rock. Mesmo não sabendo tocar nenhum instrumento. Mas o tempo passou tão rápido… E continuaria a passar cada vez mais. Nenhum tempo de vida humana lhe parecia suficiente para tantas vontades, para tudo que guardava dentro de si.

Suspirou mais duas vezes e limpou as lágrimas. Decidiu que a Aline de dez anos atrás acharia que a Aline de agora não deveria chorar na frente dos outros adultos. Deveria ser forte, erguer a cabeça e seguir em frente.

“Ok, em frente. Mas para onde é em frente, exatamente?” pensou, e era quase como se perguntasse para sua pequena amiga. Era quase como se implorasse por uma resposta.

“Em frente é até onde o seu coração mandar.”, respondeu a mini-Aline.

“Você deve ter razão. Você era muito mais sábia do que eu sou agora, afinal.”

Aline não se sentia mais tão sozinha. Tinha a si mesmo e, ás vezes, isso é tudo o que a gente precisa.

Primeiros passos

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Ele soltou a minha mão e disse:

– Vai que o mundo é teu.

Mas eu não sabia para onde ir ou qual caminho seguir. Ele disse que o caminho estava dentro de mim. Eu ri e o chamei de brega, embora soubesse que é verdade. A minha força estava toda aqui dentro. Somos como uma fruta suculenta da qual não conseguimos tirar o suco por pura preguiça de espremer. E talvez essa não seja a melhor metáfora para explicar o quão rico é cada ser humano, mas acho que vocês entenderam.

Eu quis caminhar sozinha com o mundo todo pela frente. Mochila nas costas, medo no coração e muitas idéias na cabeça. Corri o mais rápido que pude para sentir o vento no rosto, mas em alguns trechos do caminho eu só parei e observei a paisagem. Ás vezes a gente precisa dar uma pausa, se dar conta do que já conquistou e agradecer. Só isso. E assim se abrem novos caminhos. Infinitos e distintos.

Eu tive medo de escolher, não queria abrir mão de nada. Mas depois descobri que a questão não estava em abdicar e sim em me descobrir. Eu, por natureza, devia pertencer a algum lugar. E lentamente, mas sem parar, fui chegando lá. Lá onde? Não se sabe, pois não existe um final. Eu caminhei sempre, não se chega nunca e essa é a maior recompensa. Os trajetos se alteram e os destinos não terminam.

Mas fui. Fui com tantas dúvidas – elas sempre vão existir – mas não me importei porque eu só precisava de uma certeza. A certeza do que eu quero. O desejo e a vontade de continuar. E isso é o suficiente.

Ele soltou a minha mão e disse:

– Vai, vai que o mundo é teu. Mas eu tô aqui te olhando tá? Se cair, eu te seguro.

Obrigada.

Uma noite mais preta do que café

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Em uma noite de lua nova, estava eu e minha companheira inseparável – uma xícara de café, pronta para adoçar e amargar a vida – mergulhadas nos cantos mais recônditos da imaginação, juntas nas horas mais sombrias, como de costume. Foi quando ouvi um barulho estranho. A princípio, imaginei que fosse o efeito da cafeína, que provavelmente já era mais presente no meu sangue do que os próprios glóbulos vermelhos. Fiquei alerta por alguns segundos, mas o silêncio se instaurou novamente.

Gosto muito de ficar assim, no escuro do meu canto. Com todas as cortinas fechadas durante o dia, e com a vista do céu estrelado à noite. O vento frio entrando, o barulho de poucos carros lá fora, às vezes o grito de algum bêbado. Mas nesta noite, em especial, o silêncio era quase absoluto. A única coisa que eu ouvia eram os meus dedos batendo no teclado do computador e, por um instante, aquele som. Já tinha esquecido, não me preocupava. Pelo menos não me preocupou até surgir de novo, de dentro do vazio, aquele barulho metálico. Dessa vez mais forte e mais irritante. E depois parou.

Resolvi fazer o que qualquer pessoa em sã consciência – e que acabou de ouvir um barulho estranho quando está sozinha em casa – faria. Liguei a televisão. Estava sendo transmitido o show do Metallica. Ótimo. Aumentei o volume e disse para mim mesma que era porque eu amava aquela música. Beleza. Tudo sob controle. Alguns minutos assim quando de repente ouço alguma coisa bem grande cair na cozinha. Puta que me pariu. Foi só uma panela, o meu lado sensato disse, tentando me tranquilizar. A xícara na minha mão já estava vazia. Chega de café, pensei. Daqui a pouco vou ter que ir para a clínica de reabilitação. Overdose e fortes delírios depois de sete xícaras cheias de café.

Eu precisava ir até a cozinha deixar a xícara. Na verdade, eu não precisava não. Mas eu queria ir, porque poderia ter um rato perambulando por lá. Ou um ladrão, ou um monstro, ou um disco voador. E como mulher adulta e responsável, dona de casa e solteira, eu tinha o dever de defender o meu lar.

Cheguei na cozinha com a xícara na mão e o coração na boca. Pé ante pé, fui abrindo caminho entre armários e vasilhas. Minha cozinha nunca foi tão grande e escura quanto nesses longos minutos. Acendi a luz e fechei os olhos, me sentindo estúpida. E então ouvi um miado, mais agudo e mais arrastado do que qualquer outro que já tivesse ouvido. Abri os olhos, olhei para a janela e respirei, surpresa e aliviada: Dois olhos verdes e felinos me encaravam, mas não eram olhos de nenhum monstro ou fera bestial. Era um filhote de gato que tinha surgido de algum lugar e entrado na cozinha pela janela aberta. Estava ainda mais assustado do que eu. Bem pequenininho e estabanado, já tinha derrubado um monte de utensílios e se preparava para fugir quando me ouviu chegar.

-Não foge não, neném! Vem cá…

Olhou para mim, superior e delicado, e pensou quinhentas vezes se valia mesmo a pena confiar naquela humana. Mas ao poucos, acabou cedendo. Veio em passos lentos e alguns minutos depois já estava aninhado no meu colo. Era uma bolotinha preta que continha duas esmeraldas verdes na cara, a princípio desconfiadas – como deve ser um gato que se preze – e depois muito acolhedoras. Tão acolhedoras que, a partir daí, foram acolhidas como as pedras mais preciosas daquele meu mundinho escuro regado a café.

E pode até ser que você ainda não tenha se convencido de que não tinha mesmo nada de ameaçador na minha cozinha. Pode ser também que você seja uma daquelas pessoas cheias de preconceitos contra gatos pretos de esmeraldas verdes na cara. Mas uma coisa eu posso lhe garantir: Depois dessa noite, eu, a xícara e a bolotinha preta vivemos felizes para sempre. Ou pelo menos por um tempo.