O balanço dos velhos

O velho trocador de ônibus que nunca sonhou em ser trocador de ônibus observava atento a qualquer movimento. As horas corriam despercebidas dentro dele, o vento arejando os pensamentos. Os outros velhos – passageiros da dianteira do ônibus – se balançavam no ritmo dos quebra-molas.

Um deles tinha uma postura que deixava dúvidas se era fisicamente corcunda ou só envergada pelo peso do tempo. Quando não estava olhando para baixo, estava olhando de baixo – mas sempre com curiosidade. A sua idade também não era clara. Podia ter de 60 a 80 anos, tudo depende do que viveu e do quesito estar ou não estar “bem conservado”. Eu me lembro de ser criança e escutar os adultos falarem a respeito dos velhos.

–  Aquela ali está acabada, coitada…

– Nem me fale! Mas aquele outro está até bem conservado. Quer dizer, para a idade, não é mesmo?

– Sim, é um coroa muito enxuto.

De qualquer forma, não era o caso desse senhor em particular. Inclusive, olhando de relance poderia até se pensar que se tratava de um morador de rua. Talvez pelo modo suplicante de olhar, pela postura de quem se retira da sociedade por acreditar não ter mais espaço ali. O homem era quase um bufão em fim de carreira, um Quasímodo decadente.

O ônibus parou e subiu um outro senhor, de camisa social e gravata, pasta de couro e cabelo grisalho. Era um homem de negócios e, esse sim, um senhor “enxuto”. Tinha a expressão cansada de quem trabalhou o dia inteiro. Não cansada da vida, como o outro. Mesmo sendo tão distintos, os dois pareciam ter a mesma idade.

O homem de negócios era mais alto e despertou o olhar de admiração do velho corcunda assim que pisou no ônibus. Passou a encará-lo quase com idolatria, o que deixou o homem desconfortável. Este evitou o olhar, tentou fingir naturalidade e, por mais que tentasse, não conseguia deixar de sentir um misto de asco e pena daquele velho esquisito. Por fim, resolveu passar pela roleta – mesmo não precisando – e ir para a parte de trás do ônibus, para bem longe daquela criatura estranha. Criatura esta que o acompanhou com o olhar até que sumisse no meio da multidão, porque ônibus lotado e multidão é a mesma coisa.

Ainda insistiu, por alguns instantes, em procurar o senhor de negócios: queria invejá-lo, admirá-lo, imaginar o que é que ele tinha feito de diferente para estar ali. Mas não o encontrou mais, tão cheio o transporte. E então se conformou. E voltou a fitar o vazio.

Procura-se: ar fresco

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Respirar parecia mais difícil do que já fora um dia. Marina acabara de comer um hambúrguer e algumas batatas fritas. O vestido lhe apertava o estômago e a calcinha ardia nas coxas. Se levantou da cadeira e foi em direção ao banheiro, para se debruçar na privada e colocar todo o lixo para fora. Mas não funcionou, faltou coragem.

Talvez o que quisesse fosse só sair um pouco daquele lugar, ter alguma distração ou adrenalina. Estava no escritório de advocacia, presa com um bando de animais que não faziam ideia de quem ela era de verdade. Aceitara o emprego por conveniência e, claro, pelo dinheiro. Pensou que pudesse ser um jeito melhor de passar o tempo que não fosse ficar deitada no sofá o dia inteiro assistindo a vídeos de receitas. Primeiro, porque ela nunca sequer tentou fazer nenhuma daquelas receitas. Segundo, porque aquela atividade lhe dava fome. E terceiro porque, mesmo que se dispusesse a cozinhar, não teria dinheiro para comprar os ingredientes. Ter um emprego era, realmente, uma necessidade. Mesmo que tivesse que passar horas em uma jaula escura e fedorenta – era assim que encarava o escritório.

Carregava um fardo diário de suportar o que a vida lhe empurrava goela abaixo. Além disso, não se sentia capaz de tomar suas próprias decisões ou de realizar qualquer coisa sem depender de algum tipo de influência externa ou boa vontade divina. As vinte quatro horas se arrastavam, assim como os sete dias da semana ou os doze meses do ano. Entre a lentidão, vários sentimentos agitavam dentro de si. Primeiro o tédio, depois a melancolia seguida do torpor. E logo vinha a baixa estima e a falta de energia, que resultava em preguiça no sentido mais amplo da palavra. Preguiça das pessoas. Preguiça de viver.

Finalmente a noite caiu e Marina pôde ir para a casa. No caminho, se entorpeceu de uma dose de Charles Bukowski no ônibus. Chegando ao apartamento escuro, não teve vontade de acender as luzes. Seguiu tateando até a cozinha. Bebeu um whisky, foi para a cama e chorou até dormir.

Ficar sozinha dá medo, eu sei

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Me senti uma estúpida quando percebi, já dentro do vagão, que havia esquecido meu celular com você. Sim, uma estúpida. Porque depois de um domingo lindo com a melhor pessoa ao meu lado, eu saí correndo sem me despedir – sem sequer olhar para trás – só para não me sacrificar passando dez minutos a mais na estação esperando o próximo metrô. E você parou, no meio da escada, me observando partir. Nem se assustou, já tinha se acostumado aos meus rompantes desesperados, meus atos impensados de estupidez e meu jeito avoado de esquecer um pedacinho de mim por todo lugar.

Quando olhei para trás a porta se fechou e te perdi de vista. Bastaram uns cinco segundos para que eu percebesse a consequência da minha pressa e da minha cabeça oca. Eu havia deixado meu celular no bolso dos seus jeans. Não me desesperei. Pensei que seria fácil, era só voltar uma estação e te encontrar. Mas eu não consegui te pedir para me esperar – afinal, estava incomunicável. E quando eu consegui voltar à estação em que devíamos ter nos despedido, notei, decepcionada, que você não estava mais lá.

Aí veio o desespero. A tristeza e a solidão. Junto com a constatação de que você sequer tinha se lembrado do meu celular e que já devia estar bem longe pelas linhas do metrô, talvez chegando em casa. Não me entenda errado, o sofrimento não era pelo objeto em si. É que você me acostumou muito mal e eu cheguei a acreditar que – como se o mundo todo girasse em torno do meu glorioso umbigo – você esperaria por mim, pacientemente, com meu celular na mão.

Naquela hora me veio uma sensação estranha, uma espécie de abandono combinado com todas as frustrações de uma vida. Que nem quando a gente segura o choro o dia inteiro e de repente acontece uma coisinha idiota que nos faz transbordar em lágrimas. E aí as pessoas te perguntam o porquê de você estar chorando por uma coisa tão pequena, e você só quer explicar para elas que não é só isso, que é tudo e muito mais. Que é um monte de coisa acumulada que não coube mais dentro do peito. Um monte de coisa que transbordou e fez a maior bagunça, porque chorar é quando a gente transborda.

Olhei em volta e me vi sozinha em um lugar cheio de gente. E olha, nunca tive problemas em ficar sozinha. Não antes de você. Me acostumei tanto à sua presença que, naquele momento, o fato de você não estar ali parecia o fim do mundo. E eu chorei como uma menininha, porque bem lá no fundo é o que eu ainda sou. Desamparada, vulnerável, perdida, fraca e pequena naquela cidade de gigantes. Sem você.

Depois de alguns minutos, o metrô da viagem de volta pra casa chegou. Limpei as lágrimas apressadamente e entrei no vagão rumo ao meu lar, tomando o cuidado de não transparecer a ninguém os meus dramas pessoais. Ao mesmo tempo em que tentava interpretar o meu papel de moça adulta, me sentia uma imbecil por isso.

Cheguei em casa, comi um pedaço de bolo de aniversário que há dias estava na geladeira. Resolvi ser mais otimista e aos poucos fui me recuperando do “trauma”, assim como costumam terminar todas as outras cenas dramáticas do filme da minha vida. Foi quando escutei a sua voz me chamando do portão. Desci as escadas correndo, sem acreditar. Era você, na porta da minha casa e com um celular na mão. Era você, depois de ter atravessado a cidade para me encontrar. Depois de um dia cheio e quando já devia estar em casa, era você ali em uma noite de domingo. Na porta da minha casa só para me entregar um maldito celular. Você.

Tive vontade de te socar e de te beijar ao mesmo tempo. Você nunca vai me abandonar mesmo, né? Te achei tão bobo e te amei muito mais.