Escrever até o fim, sem ponto final

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Escritor tem pensamentos em prosa, palavras que precisam ser escritas antes de serem ditas. A necessidade de escrever é um bichinho inquieto, uma vozinha que sussurra no ouvido versos sobre pequenos detalhes do cotidiano. Todo escritor é um romântico à moda antiga, um sonhador. Ao invés de falar o que sente,  ele prefere derramar em segredo seus sentimentos no papel. Pensa mil vezes antes de dizer algo, e muitas vezes acaba não dizendo. Mas não fica engasgado: Faz uma poesia.

A escrita não é nenhuma dádiva de Deus. É sangue e suor, e muitas vezes é a única alternativa. Alguns escrevem porque só sabem fazer isso, outros porque querem ajudar alguém de alguma forma, outros só para se sentirem melhor. Uma coisa é fato: Quem escreve se organiza, se entende e se conhece muito mais. O texto é uma descoberta, de si mesmo e do mundo. Isso porque escrever é abrir caminho para um universo de infinitas possibilidades – e poder levar outras pessoas junto. Escreve-se algo que não deveria passar despercebido, escreve-se para gravar na história um sentimento (ou um diálogo, ou uma pessoa), escreve-se desesperadamente quando não há outro meio de expressar a vastidão de ser humano.

Como reconhecer uma alma de escritor: Pode ser um sujeito aparentemente calmo e reservado, ou pode ser um bêbado cínico. Muitas vezes pode parecer frio, mas não se engane. Escritor é um ser sensível, não sentimental. Escritor é, antes de tudo, observador. É um curioso ávido pela vida, um admirador das pessoas e da natureza, um ser misterioso – até perigoso, eu diria. Um escritor tem vários “eus” dentro de si e inúmeras aventuras a viver. Porém, por mais que eu tente desvendar o olhar de quem escreve, estou certa de que a melhor definição seja mesmo a de Drummond: “Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.”

Feliz Dia do Escritor!

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O nosso amor é um bloqueio criativo

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Das coisas que você faz por mim – e que eu não sei retribuir: Me mimar, me cantar, me adorar. Eu não vou te amar mais por isso, então pare. Eu te amo e não sei te amar. Só sei que enquanto eu escrevo isso meu corpo sente a sua falta. Mas não posso romantizar o nosso romance.

Não, eu não vou dizer “sim”. Eu não vou prometer nada. Nem vou dizer que vai ficar tudo bem, e muito menos te dar certezas. Não tenho certeza nem de mim, do que eu sou e do que vou ser. Do que eu quero ou do que posso posso desistir. Só sei que não quero ter certeza de nada – nem mesmo de você. A vida é mais legal quando a gente corre riscos.

Só toma cuidado para não me derrubar – eu sou mais frágil do que pareço.

Só toma cuidado para não me sufocar – eu sou mais forte do que pareço.

Você me diz que eu não lhe dou atenção. Mas eu digo: É você que não percebe quando eu me faço de desatenta. Que eu faço piada para me importar menos.

Você diz que eu me escondo. Mas eu nunca me mostrei tanto. Então não é esconderijo, é o que eu digo: Sou um mistério até para mim.

O nosso amor é uma folha em branco em que há tanto para ser dito. Tantas possibilidades. Eu não sei fazer poema e quase não escuto músicas de amor. Esses sentimentos vão muito além das palavras. O nosso amor é um bloqueio criativo.

Por não estarem distraídos

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Clarice Lispector

 Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.