03 de outubro

No dia 03 de outubro de 2007, eu saí da escola e fui para a casa da minha avó. Era uma coisa que eu costumava fazer quando estava brigada com a minha mãe. Quem nunca se refugiou na cozinha da avó para não ter que encarar os pais que atire a primeira pedra.

Mas neste dia, em especial, exatamente às 17h30min eu saía da escola e subia a pé pela Rua 10 de abril com uma expectativa diferente. Uma sensação nunca antes experimentada. A ansiedade de ser apresentada a uma pessoa que já considerava meu amigo íntimo pelos últimos nove meses: meu irmãozinho.

Cheguei ao portão da vovó disse:

– E aí.

– E aí? Que frieza é essa, menina? – Ela estava muito ansiosa, sentada na varanda esperando por mim para irmos juntas ao hospital, apesar de já ter conhecido o bebê e de ter passado o dia inteiro lá com a minha mãe.

– Que isso, tá louca? Tô de boa, não viaja não. Bora?

Ela olhou para mim, pasma. Talvez achasse que eu chegaria pulando de alegria e ansiedade e implorando para irmos logo. Mas eu, no auge dos meus doze anos, procurava não demonstrar tanto o quanto aquele acontecimento era importante para mim. Afinal, eu estava mesmo de boa.

Não demorou muito e chegamos ao hospital – cidade pequena, sabe como é, só atravessamos a praça e já tínhamos chegado. Minha avó havia me instruído a dar os parabéns à minha mãe quando chegássemos. Acho que ela queria se certificar que eu seria educada naquele momento tão delicado. Respondi à altura:

– Ih…Relaxa, vó.

Quando entramos no quarto, eu ainda sentia o peso da obrigação de parabenizar minha mãe, quando o choque me paralisou. Parei na porta. Um pequeno ser humano muito vermelho e enrugado me encarava, e eu o achei a coisa mais linda do universo. Minha expressão deve ter sido de total encantamento, porque pude ouvir a minha mãe rindo da minha cara na cama ao lado. Aí me lembrei que tinha que parabenizá-la e o fiz o mais rapidamente que pude (desculpe, mãe) para poder observar aquele serzinho de perto.

Heitor Eduardo Marques de Oliveira Ferreira tinha os olhos arregalados e fixados em mim. Era tão lindo… E tão pequeno. Eu não gostava de bebês ou crianças menores até aquele exato momento. Me aproximei do berço, devagarzinho e com o coração saltando.

Eu não sabia lidar com tanta fragilidade. Mas aí ele segurou o meu dedo e não quis soltar, foi quando eu pensei: “Garoto, você é forte. Vamos ser bons amigos.”

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O nosso amor é um bloqueio criativo

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Das coisas que você faz por mim – e que eu não sei retribuir: Me mimar, me cantar, me adorar. Eu não vou te amar mais por isso, então pare. Eu te amo e não sei te amar. Só sei que enquanto eu escrevo isso meu corpo sente a sua falta. Mas não posso romantizar o nosso romance.

Não, eu não vou dizer “sim”. Eu não vou prometer nada. Nem vou dizer que vai ficar tudo bem, e muito menos te dar certezas. Não tenho certeza nem de mim, do que eu sou e do que vou ser. Do que eu quero ou do que posso posso desistir. Só sei que não quero ter certeza de nada – nem mesmo de você. A vida é mais legal quando a gente corre riscos.

Só toma cuidado para não me derrubar – eu sou mais frágil do que pareço.

Só toma cuidado para não me sufocar – eu sou mais forte do que pareço.

Você me diz que eu não lhe dou atenção. Mas eu digo: É você que não percebe quando eu me faço de desatenta. Que eu faço piada para me importar menos.

Você diz que eu me escondo. Mas eu nunca me mostrei tanto. Então não é esconderijo, é o que eu digo: Sou um mistério até para mim.

O nosso amor é uma folha em branco em que há tanto para ser dito. Tantas possibilidades. Eu não sei fazer poema e quase não escuto músicas de amor. Esses sentimentos vão muito além das palavras. O nosso amor é um bloqueio criativo.

Carta para dizer ao meu amor que eu sou mais forte do que pareço

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Meu bem, não entenda mal o que vou dizer agora. Eu preciso admitir que sinto muito medo. E não é medo de que a gente acabe. Eu sei que vai acabar um dia, e aceito isso tranquilamente – por mais que eu te ame, não acredito em “para sempre”. Meu medo é de te amar mais ainda. De um dia não conseguir viver sem você. Acima de tudo, tenho medo de depender de alguém e de esquecer como é ser feliz sozinha. Mais uma vez: não me entenda mal. É que eu gosto MUITO de ficar sozinha.

Sempre me virei assim, livre para cuidar de mim mesma. E talvez por isso, nunca tenha aprendido a cuidar de ninguém. Desde pequena fui do mundo, cachorro vagabundo. E agora me aparece você, querendo me amparar a cada tropeço – e são tantos. Sempre pronto para ser uma terra firme justo a quem nunca teve raízes. Você vem assim, me fazendo cafuné quando eu faço cara de choro e me dando mais carinho do que mereço ou consigo retribuir. Eu me apaixono cada vez mais, ao mesmo tempo que penso que não faria nem metade do que você faz por mim, porque sou estupidamente egoísta. Fui criada para aprender a cuidar de mim e só de mim.

Ás vezes, o meu medo se disfarça de autodefesa e insiste em perguntar: Vou continuar sendo a mesma, apesar de você? Não quero deixar de ser livre por ninguém, entende? Gosto de me sentir sozinha e de ter que resolver problemas sozinha, o que faz com que eu me sinta mais forte e corajosa. É bom ter alguém do nosso lado de vez em quando, mas não me segure a cada tropeço porque eu não me importo em cair. Eu sei levantar. Com ou sem você.

Você é a minha notificação preferida

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O celular vibra e eu nem me assusto. É você, a minha notificação preferida. Por incrível que pareça, eu sempre sei quando é você. Aquele que envia a mensagem certa na hora exata, e que sempre sabe o que dizer quando eu preciso de palavras gentis. Às vezes você também manda mensagem quando eu já nem lembro mais qual era o assunto, já nem lembro mais qual era a resposta. Aí eu lembro. Lembro de você e da gente. E sorrio, toda vez.

Há um tempo, me disseram que o amor aparece quando não se está procurando. E por muito tempo eu procurei, tanto e em tantos lugares errados. Eu realmente não sabia onde buscar. Mas, um dia, alguém achou amor em mim. E eu achei isso bonito, sabe? Essa habilidade de se achar amor em alguém. De se deixar encantar pelo outro e não pela vontade que se tem de encontrar alguém que corresponda exatamente ao que a gente imaginou. Então decidi procurar amor nessa pessoa também. E, quando menos esperava, acabei encontrando. Encontrei amor em você. Meu lugar certo. O lugar que eu já tinha procurado tão rápida e distraidamente, que não enxerguei da primeira vez.

Foi tão devagarzinho e raro para mim, esse processo de encontrar amor em alguém e, consequentemente, encontrar-se em amor e encontrar-se em alguém. Meus pés queriam sair do chão, mas você soube me segurar no solo firme do nosso planeta. Plantamos flores nessa terra enquanto eu só sabia pensar – e desejar com muita força –  que, dessa vez, deviam ser sementes boas. Nada de ervas daninhas, hoje eu já nem lembro mais como era lutar contra elas. Porque o que é bom está crescendo: as nossas mudinhas, as nossas flores, os nossos galhos, os nossos sonhos, os nossos delírios, os nossos planos. O nosso jardim. Obrigada por ser parte de mim.

Não-sentimental

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Eu tenho raiva de mim todo dia. E me censuro pelas coisas estúpidas que faço o tempo todo. Como manter a minha dieta por apenas algumas horas.

Odeio quando sou rude com você. Acredite, dói mais em mim. Odeio o modo como eu desprezo seu amor e digo que não importa o que você sinta por mim, isso não vai solucionar os meus problemas. Eu odeio não dar prioridade aos meus amigos, eu odeio não dar prioridade às minhas vontades. Vejo a vida passar enquanto faço planos demais e não consigo concretizar nenhum. Começo mil projetos – na minha cabeça – o tempo inteiro. E é tão difícil lidar com essa minha mente. Entende? São tantas vontades, não cabem em uma planilha do Excel. Não sei administrar, não consigo me organizar. Enquanto isso, o tempo voa.

Tudo me irrita, inclusive esse seu ritmo devagar. Lento, como se quisesse me acalmar. Funciona por algumas horas até que você se vá. E sem sua presença eu só sei enlouquecer e me perder entre as listas que faço de tarefas a serem cumpridas, listas eternas e nunca finalizadas. Não tenho disciplina, não sou autodidata, quando é que vou me conformar? Quando é que vou me conformar com o fato de que a única coisa que eu sei fazer além de escrever alguns parágrafos, é assistir filmes e ler livros? A vida podia ser só isso. Inclusive, foi por isso que dispensei a minha terapeuta: para ficar em casa assistindo Netflix. Quer jeito melhor de aproveitar o tempo?

Lembrei de mais uma coisa que eu odeio: Estar apaixonada por você. Isso me leva para o conforto e o alívio, para as tardes de bobeira, comendo chocolate na sua cama e rindo de piadas sem sentido. Mas eu não quero me sentir aliviada. Eu não quero relaxar, entende? Sinto a vida passando rápido demais e sinto que tenho que vivê-la, que tenho que senti-la, antes que ela escape. É uma questão de milésimos de segundo, a nossa existência. Você percebe? Eu só quero cumprir todas as tarefas da minha agenda e ainda ter tempo para sonhar, cantar, dançar e ir ao teatro. Eu não consigo nem cumprir as tarefas da minha agenda, imagine só o resto. Imagine só se tenho tempo para as coisas mais importantes (não tenho). Quase sempre me sinto como uma velha que perdeu o vigor da juventude. Eu só queria dançar. Mas não tenho mais toda essa energia.

Quando foi que eu parei de me aventurar?

 

Sempre sonhei em viver grandes aventuras. Quando pequena eu era às vezes super-heroína, às vezes estrela do rock. No tempo livre gostava de me esgueirar por lugares perigosos – ou nem tanto – para cumprir mais uma das minhas missões de super espiã meio ninja/meio gênio da tecnologia. No fim da noite eu dormia olhando para a janela, e sonhava com o dia em que Peter Pan viria me buscar e me levaria à Terra do Nunca. O rei dos meninos perdidos era meu príncipe encantado, a Terra do Nunca era o meu castelo de contos de fadas. Viver entre sereias, piratas e fadas, cada dia uma aventura e ainda por cima ser criança para sempre! Era tudo que eu queria.

A gente cresce e para de fantasiar. A gente cresce e sabota nossas próprias ideias e loucuras, das quais talvez pudesse brotar o mais alto pé de feijõezinhos coloridos. A gente cresce e se esquece de que um dia fomos crianças. Ou seja, nos esquecemos de quem realmente somos sem essa carga de moralidade e valores impostos que somos obrigados a ir carregando ao longo da vida.

Desde que cresci, ando com esse medo terrível de me arriscar. De sonhar alto demais e não corresponder às minhas próprias expectativas. Medo das aventuras pelas quais sempre esperei. Medo de dar a cara à tapa, de errar, de ouvir um não, de seguir meus instintos. Queria saber ser mais impulsiva, mais aventureira. E sem ficar constrangida por qualquer motivo. Queria saber exteriorizar a força que tenho dentro de mim, a minha imaginação e as milhares de ideias malucas que tenho todos os dias. Queria conseguir falar “eu te amo” quando tenho vontade, ou pedir perdão sem deixar falhar a voz. Queria saber mostrar para o mundo o que sei que sou capaz, mas que escondo por puro medo.

As experiências – e até os erros – são os maiores responsáveis pelo nosso crescimento. Todo mundo sabe disso, mas pouca gente se permite arriscar e, consequentemente, ser feliz. Ser criança de novo é lembrar-se do seu verdadeiro eu. A sabedoria destas pequenas é tão subestimada por nós, que tapamos os olhos para as verdades que os pirralhos nos dizem o tempo todo. Chega um ponto no qual nos é cobrado que sejamos adultos. O que, quase sempre, significa ter emprego, dinheiro, independência e responsabilidade. Mas onde fica a diversão nessa história toda? A aventura, o frio na barriga, a imaginação…Essas coisas se perdem no meio do caminho.

Não deixe que isso aconteça. Talvez já tenha acontecido a você, mas nunca é tarde para se recuperar a inocência de viver intensamente. Escrevo esse texto porque às vezes, nos dias ruins, percebo esse sentimento infantil se esvaindo lentamente de mim. Escrevo esse texto com conhecimento de causa. Com as crianças aprendi muitas coisas, entre elas a pura sinceridade e a coragem de fazer qualquer coisa, desde que seja divertido. E por isso me nego, sempre, a deixar de ser uma delas. A deixar de me aventurar. Tenho 21 anos e vou ser criança para sempre.

E você? Qual foi a última vez que se aventurou?

escrito em um espirro

Imagem de art

Ele gritou. Eu disse não. A gente sempre vai na contramão e não e não e mãos e sãos. E somos. Ou estamos? Indo. Ou parando? Chegamos, aliviados. Era errado e automático, era a minha fala que gemia e te encolhia. Enquanto isso, alguém dizia que eu era inevitável, em cada coisa irremediável. Não se atreva a falar, só olha para mim. Mas olha bem, olha me enxergando, tá? Está chovendo, não está? A chuva é linda e a noite é mais bonita ainda. Até quando, Deus? Até quando, respondeu. E acordou. Era tudo um sonho.

Você me disse para ter calma, mas era tudo um sonho e você não sabe de nada. Eu sei de tudo, eu sou um mundo. Eu sou o planeta que você quer explorar e que gira. E gira, e gira, e gira. Respira. E gira, e gira, e gira sem parar. Até se cansar. Você não se cansa de mim? Você disse que já sabia, mas eu queria te contar. Eu queria, porra! Me deixa. Me beija. Me seja. Você me prende demais, eu só queria ser mais. Mais do que isso que eu já sou, muito mais do que esse infinito que eu já sou. Acordei. Era tudo um sonho.

E assim, fico aqui sentada. Calada. Mais atordoada do que concentrada. Me deixa. Me beija. Me seja.

Não posso parar, e não quero. Me deixa em paz, tá? Já vai, já vou. A gente vai, nós é que não vamos. Não temos o mesmo destino, você sempre soube que eu não sei fazer versos. Já não quero mais que você leia essa maldita carta careta de amor. Vou jogá-la fora assim que terminar essa página, é isso. Deixa doer. Deixa arder. Meus pulsos já não sangram mais. Ai.

Minha mão dói tanto, mas não posso parar. Preciso terminar essa carta maldita dos devaneios tristes que somem em suspiros de estourar as veias. Vou cortar os pulsos. Chega! E era tudo um sonho.

O cansaço me machuca e me atropela e, mastigada pelos meus sonhos frustrados eu berro em palavras escritas, que é pra não incomodar ninguém. Não queria ser mais melancólica do que Caio Fernando em estado terminal, quem lê deve realmente acreditar que eu sou uma pessoa triste.

Eu sou uma pessoa triste?

Até logo. Até logo? Eu não quero ir embora, mas também não quero ficar aqui. Acho que vou fazer isso todo dia, essa maldição de escrever na contramão a minha insensatez.

Eu te amaldiçoei e você nem percebeu. Te condenei a não me esquecer e depois te envenenei. Você sentiu o doce mel da ilusão e vomitou. Você não morreu. A gente disse o não dito através de versos bem-vindos. A gente disse o que queria não ter dito. Mas a poesia era só nossa. A poesia de todo o mundo se tornou nossa em um instante em que tudo transbordava, os corpos transbordavam. Mas eu não te quero aqui. E era tudo um sonho. Não era?

Não era.

Tempos difíceis

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Está sendo um trabalho árduo viver cada dia, sobreviver a cada semana. Sábado eu tenho você e domingo também. Mas segunda a sexta é uma luta, sabe? Um trabalho árduo. Sobreviver a mim, a sua falta, e a presença de todas as outras pessoas que não fazem nada além de reclamar dos seus próprios problemas e se esquecem que não são as únicas que sofrem nesse mundo de meu Deus.

Tem sido tempos difíceis. Mesmo quando o dia está ensolarado, mesmo quando a chuva cai forte como se quisesse lavar a cidade. E isso só deixa mais visível a imundície de onde a gente vive. As pessoas olham ao redor e não se enxergam. Ontem um moço forçou todo mundo do ônibus a ouvir coisas que não queríamos. E ninguém quis conversar.

As pessoas não estão dispostas a conversar, as pessoas não estão dispostas a relevar ou a se informar. As pessoas sequer estão dispostas a sorrir. O que falta no mundo é humildade.

E aí eu te perguntei o que é que a gente pode fazer. Se é que tem algo que a gente possa fazer para deixar o mundo um pouquinho menos parecido com um lixão. Você disse: sorria! Disse que sorrir é remédio bom de verdade, que se preocupar tanto assim não muda nada. E disse que assim como meu sorriso faz bem a você, quem sabe mude o dia ou a vida de outras pessoas. Não sou tão especial assim, eu disse. Não tenho esse super poder, não posso salvar ninguém. Só queria salvar a mim mesma e talvez um dia eu consiga. Mas salvar outra pessoa, não sei, não sou capaz.

Dizer isso em voz alta me deu uma tristeza enorme, como um buraco no peito. Você se calou, mesmo quando percebeu que eu esperava um conselho mágico, uma fórmula secreta que só você sabia. Mas nunca houve fórmulas. A fórmula é estar aqui com você. Em um mundo tão nosso e tão distante de tudo aquilo lá fora. Longe das guerras e das pessoas que se devoram com palavras. Você é a calma no centro do caos.

Por não estarem distraídos

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Clarice Lispector

 Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Ficar sozinha dá medo, eu sei

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Me senti uma estúpida quando percebi, já dentro do vagão, que havia esquecido meu celular com você. Sim, uma estúpida. Porque depois de um domingo lindo com a melhor pessoa ao meu lado, eu saí correndo sem me despedir – sem sequer olhar para trás – só para não me sacrificar passando dez minutos a mais na estação esperando o próximo metrô. E você parou, no meio da escada, me observando partir. Nem se assustou, já tinha se acostumado aos meus rompantes desesperados, meus atos impensados de estupidez e meu jeito avoado de esquecer um pedacinho de mim por todo lugar.

Quando olhei para trás a porta se fechou e te perdi de vista. Bastaram uns cinco segundos para que eu percebesse a consequência da minha pressa e da minha cabeça oca. Eu havia deixado meu celular no bolso dos seus jeans. Não me desesperei. Pensei que seria fácil, era só voltar uma estação e te encontrar. Mas eu não consegui te pedir para me esperar – afinal, estava incomunicável. E quando eu consegui voltar à estação em que devíamos ter nos despedido, notei, decepcionada, que você não estava mais lá.

Aí veio o desespero. A tristeza e a solidão. Junto com a constatação de que você sequer tinha se lembrado do meu celular e que já devia estar bem longe pelas linhas do metrô, talvez chegando em casa. Não me entenda errado, o sofrimento não era pelo objeto em si. É que você me acostumou muito mal e eu cheguei a acreditar que – como se o mundo todo girasse em torno do meu glorioso umbigo – você esperaria por mim, pacientemente, com meu celular na mão.

Naquela hora me veio uma sensação estranha, uma espécie de abandono combinado com todas as frustrações de uma vida. Que nem quando a gente segura o choro o dia inteiro e de repente acontece uma coisinha idiota que nos faz transbordar em lágrimas. E aí as pessoas te perguntam o porquê de você estar chorando por uma coisa tão pequena, e você só quer explicar para elas que não é só isso, que é tudo e muito mais. Que é um monte de coisa acumulada que não coube mais dentro do peito. Um monte de coisa que transbordou e fez a maior bagunça, porque chorar é quando a gente transborda.

Olhei em volta e me vi sozinha em um lugar cheio de gente. E olha, nunca tive problemas em ficar sozinha. Não antes de você. Me acostumei tanto à sua presença que, naquele momento, o fato de você não estar ali parecia o fim do mundo. E eu chorei como uma menininha, porque bem lá no fundo é o que eu ainda sou. Desamparada, vulnerável, perdida, fraca e pequena naquela cidade de gigantes. Sem você.

Depois de alguns minutos, o metrô da viagem de volta pra casa chegou. Limpei as lágrimas apressadamente e entrei no vagão rumo ao meu lar, tomando o cuidado de não transparecer a ninguém os meus dramas pessoais. Ao mesmo tempo em que tentava interpretar o meu papel de moça adulta, me sentia uma imbecil por isso.

Cheguei em casa, comi um pedaço de bolo de aniversário que há dias estava na geladeira. Resolvi ser mais otimista e aos poucos fui me recuperando do “trauma”, assim como costumam terminar todas as outras cenas dramáticas do filme da minha vida. Foi quando escutei a sua voz me chamando do portão. Desci as escadas correndo, sem acreditar. Era você, na porta da minha casa e com um celular na mão. Era você, depois de ter atravessado a cidade para me encontrar. Depois de um dia cheio e quando já devia estar em casa, era você ali em uma noite de domingo. Na porta da minha casa só para me entregar um maldito celular. Você.

Tive vontade de te socar e de te beijar ao mesmo tempo. Você nunca vai me abandonar mesmo, né? Te achei tão bobo e te amei muito mais.