Quando foi que eu parei de me aventurar?

 

Sempre sonhei em viver grandes aventuras. Quando pequena eu era às vezes super-heroína, às vezes estrela do rock. No tempo livre gostava de me esgueirar por lugares perigosos – ou nem tanto – para cumprir mais uma das minhas missões de super espiã meio ninja/meio gênio da tecnologia. No fim da noite eu dormia olhando para a janela, e sonhava com o dia em que Peter Pan viria me buscar e me levaria à Terra do Nunca. O rei dos meninos perdidos era meu príncipe encantado, a Terra do Nunca era o meu castelo de contos de fadas. Viver entre sereias, piratas e fadas, cada dia uma aventura e ainda por cima ser criança para sempre! Era tudo que eu queria.

A gente cresce e para de fantasiar. A gente cresce e sabota nossas próprias ideias e loucuras, das quais talvez pudesse brotar o mais alto pé de feijõezinhos coloridos. A gente cresce e se esquece de que um dia fomos crianças. Ou seja, nos esquecemos de quem realmente somos sem essa carga de moralidade e valores impostos que somos obrigados a ir carregando ao longo da vida.

Desde que cresci, ando com esse medo terrível de me arriscar. De sonhar alto demais e não corresponder às minhas próprias expectativas. Medo das aventuras pelas quais sempre esperei. Medo de dar a cara à tapa, de errar, de ouvir um não, de seguir meus instintos. Queria saber ser mais impulsiva, mais aventureira. E sem ficar constrangida por qualquer motivo. Queria saber exteriorizar a força que tenho dentro de mim, a minha imaginação e as milhares de ideias malucas que tenho todos os dias. Queria conseguir falar “eu te amo” quando tenho vontade, ou pedir perdão sem deixar falhar a voz. Queria saber mostrar para o mundo o que sei que sou capaz, mas que escondo por puro medo.

As experiências – e até os erros – são os maiores responsáveis pelo nosso crescimento. Todo mundo sabe disso, mas pouca gente se permite arriscar e, consequentemente, ser feliz. Ser criança de novo é lembrar-se do seu verdadeiro eu. A sabedoria destas pequenas é tão subestimada por nós, que tapamos os olhos para as verdades que os pirralhos nos dizem o tempo todo. Chega um ponto no qual nos é cobrado que sejamos adultos. O que, quase sempre, significa ter emprego, dinheiro, independência e responsabilidade. Mas onde fica a diversão nessa história toda? A aventura, o frio na barriga, a imaginação…Essas coisas se perdem no meio do caminho.

Não deixe que isso aconteça. Talvez já tenha acontecido a você, mas nunca é tarde para se recuperar a inocência de viver intensamente. Escrevo esse texto porque às vezes, nos dias ruins, percebo esse sentimento infantil se esvaindo lentamente de mim. Escrevo esse texto com conhecimento de causa. Com as crianças aprendi muitas coisas, entre elas a pura sinceridade e a coragem de fazer qualquer coisa, desde que seja divertido. E por isso me nego, sempre, a deixar de ser uma delas. A deixar de me aventurar. Tenho 21 anos e vou ser criança para sempre.

E você? Qual foi a última vez que se aventurou?

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Aline e Aline: um diálogo

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Aline encostou a cabeça no vidro do ônibus e respirou fundo pela décima quarta vez. É duro ser sozinha. É duro querer carregar o peso do mundo nas costas e não receber recompensa por isso. Aline era sozinha. E não entenda mal o sentido da palavra. Tinha muitos amigos, é claro, e até um namorado. E também uma família grande – com direito a bichinhos de estimação. Mas ainda sim, era sozinha. Simplesmente por se sentir, por se considerar nessa posição.

Gostava de pensar em si mesma assim: uma aventureira pelo mundo, um espírito livre e vagante, a heroína de um romance. Mas especialmente nesse dia em que o sol estourava no céu sem nuvens e o cabelo pregava de suor na nuca, ela desejava que chovesse forte – pois achava que um clima nublado ficaria mais poético no filme da sua vida – e se perguntava quando poderia ser considerada (oficialmente) uma adulta. Já tinha vinte anos e poucas coisas haviam mudado desde os dezoito. Ainda morava com os pais, mas tudo bem, porque muitos de seus amigos também moravam. E também não ajudava com as despesas da casa. Até aí as coisas não iam tão mal, em breve arrumaria um emprego temporário, e depois outro emprego melhor, e depois… E depois?

Não eram as opiniões do “mundo dos adultos” que a incomodava. O que fez uma lágrima cair e se misturar com o suor do seu rosto enquanto escutava The Smiths, foi outro tipo de preocupação. Preocupava-se com a Aline de cinco, de dez anos atrás. O que ela diria se a visse agora? Será que aprovaria seu comportamento? Será que se decepcionaria? Era tão ambiciosa, a coitadinha. Engolia o mundo com os olhos. Queria tudo, queria mais do que tudo. Será que ela esperava mais da Aline “versão adulta”?

“Muito provavelmente”, concluiu a mulher (em formação).

Lembrou-se da menina ingênua que era. Ainda aos quatorze achava que um dia seria uma estrela do rock. Mesmo não sabendo tocar nenhum instrumento. Mas o tempo passou tão rápido… E continuaria a passar cada vez mais. Nenhum tempo de vida humana lhe parecia suficiente para tantas vontades, para tudo que guardava dentro de si.

Suspirou mais duas vezes e limpou as lágrimas. Decidiu que a Aline de dez anos atrás acharia que a Aline de agora não deveria chorar na frente dos outros adultos. Deveria ser forte, erguer a cabeça e seguir em frente.

“Ok, em frente. Mas para onde é em frente, exatamente?” pensou, e era quase como se perguntasse para sua pequena amiga. Era quase como se implorasse por uma resposta.

“Em frente é até onde o seu coração mandar.”, respondeu a mini-Aline.

“Você deve ter razão. Você era muito mais sábia do que eu sou agora, afinal.”

Aline não se sentia mais tão sozinha. Tinha a si mesmo e, ás vezes, isso é tudo o que a gente precisa.

Primeiros passos

Imagem de flowers, nature, and sky

Ele soltou a minha mão e disse:

– Vai que o mundo é teu.

Mas eu não sabia para onde ir ou qual caminho seguir. Ele disse que o caminho estava dentro de mim. Eu ri e o chamei de brega, embora soubesse que é verdade. A minha força estava toda aqui dentro. Somos como uma fruta suculenta da qual não conseguimos tirar o suco por pura preguiça de espremer. E talvez essa não seja a melhor metáfora para explicar o quão rico é cada ser humano, mas acho que vocês entenderam.

Eu quis caminhar sozinha com o mundo todo pela frente. Mochila nas costas, medo no coração e muitas idéias na cabeça. Corri o mais rápido que pude para sentir o vento no rosto, mas em alguns trechos do caminho eu só parei e observei a paisagem. Ás vezes a gente precisa dar uma pausa, se dar conta do que já conquistou e agradecer. Só isso. E assim se abrem novos caminhos. Infinitos e distintos.

Eu tive medo de escolher, não queria abrir mão de nada. Mas depois descobri que a questão não estava em abdicar e sim em me descobrir. Eu, por natureza, devia pertencer a algum lugar. E lentamente, mas sem parar, fui chegando lá. Lá onde? Não se sabe, pois não existe um final. Eu caminhei sempre, não se chega nunca e essa é a maior recompensa. Os trajetos se alteram e os destinos não terminam.

Mas fui. Fui com tantas dúvidas – elas sempre vão existir – mas não me importei porque eu só precisava de uma certeza. A certeza do que eu quero. O desejo e a vontade de continuar. E isso é o suficiente.

Ele soltou a minha mão e disse:

– Vai, vai que o mundo é teu. Mas eu tô aqui te olhando tá? Se cair, eu te seguro.

Obrigada.

A leveza da força

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Eu ando tão sensível. Sensível, mas não frágil. Sacou a diferença? Ando cheia de mim, ciente do meu poder no mundo. Corajosa. Mulher. Quando eu tentava me esforçar para mostrar que era forte e durona, aí que eu era frágil. A maior fraqueza é tentar se esconder. Se revestir de gelo e não deixar ninguém entrar. Não se entregar, não se desnudar. Viver no seu próprio mundo, e apenas nele. Isso é fraqueza. É preciso uma força gigantesca para doar-se. Doar-se é doer-se, acabei aprendendo. Isso porque compartilhar as suas fraquezas é a maior prova de força de um ser humano.

Então, quando digo que ando tão sensível, quero dizer que me sinto mais receptiva e aberta a novas possibilidades. Novos amores, novas viagens, novos sentimentos e descobertas. Estou disposta a me arriscar, a me jogar do abismo.

Ás vezes me enxergo empoeirada, com o coração e a alma cansadas de bater a cara no muro. De meter a cabeça na areia e da falta de ar que isso causa. Ás vezes esqueço quem sou e quem é realmente importante na minha vida. Aí minha vida se transforma em um rio calmo e lamacento que me arrasta para sabe-se lá onde, quando o que eu queria mesmo era navegar pelo mar bravio.

Acordo e faço tudo que “devo” fazer, o que esperam de mim. Sorrio para as pessoas – nem sempre, mas tento. Sigo a minha dieta corretamente – isso é mentira. Vou à faculdade, vou à festas, passo pelos lugares sem saber por que estou ali, passo por onde me levam. Vou com a maré e adormeço. Me deixo ficar dormente. Ponho o meu fone de ouvido e ignoro o mundo o máximo que conseguir. Não quero saber do carinha que está olhando para mim do fundo do ônibus. Não vou fazer esse trabalho hoje, porque ainda é para o final do mês. Não vou ler os livros maravilhosos que tenho na minha estante, porque vou ter a vida inteira para lê-los (será mesmo?). É mais fácil ouvir a música mais triste e pensar no meu ex.

Esquece, gata. Assim a vida não anda.

Nesse momento eu preciso que alguém – qualquer um, pode até ser você – jogue um balde de água fria na minha cabeça e aponte os meus erros. E me diga que eu preciso faxinar o meu coração. E que eu nunca vou esquecer o meu ex se eu não olhar para o carinha do fundo do ônibus. Ou do fundo da sala. Ou do meu lado. E que eu nunca vou saber o que eu quero e sair do mesmo lugar se eu não nadar contra a correnteza. Eu não posso deixar nada para depois porque a vida é feita agora, e cada momento é um presente, e cada presente jogado fora muda todo o meu futuro. Compromete os meus sonhos que já poderiam ter se realizado se eu tivesse a coragem de levantar a porra da bunda do sofá e ir fazer qualquer coisa que eu tenho vontade, mas que vivo adiando.

E esse texto é pra falar sobre isso. Tem que saber ser leve para não deixar as suas feridas te pesarem. Tem que ser leve, mas com direção. É pra mandar uma luz para todas as pessoas que se sentem perdidas às vezes – eu sei que você sente isso – e para dizer que há esperança. Cafona dizer isso, mas vou dizer. A luz não está no fim do túnel, amiguinhos. A luz está dentro de cada um de nós.

O amor é uma bobagem

Imagem de flowers, grunge, and indie

Hoje eu estava lembrando daquele dia em que eu quebrei meu pé e meu coração por você. Eu tinha bebido demais e inventei de fazer qualquer gracinha para te impressionar, mas tropecei e caí. Fui para casa carregada pelos meus amigos que acharam que o meu choro tinha a ver com a lesão e o inchaço, mas o que mais doía mesmo era meu coração. O aperto no peito durou alguns dias.

Tive bastante tempo pra curtir a fossa, já que só ficava em casa por recomendações médicas e tendo como única companhia as minhas muletas. Lembro que foi por esses dias que assisti ao filme da Frida Kahlo e chorei horrores, achando a minha vida tão difícil quanto a dela e me sentindo a maior vítima dos acasos do universo. Bobagem. Com o tempo a gente aprende que um coração quebrado cura mais rápido e melhor do que um tendão lesionado.

Foi assim que eu lembrei disso hoje. E lembrei de todos os amores que já tive e de todas as vezes em que eu achei que nunca mais fosse amar de novo. Do quanto eu sofri encolhida na cama, soluçando muito e prometendo a mim mesma que era a última vez que um babaca como aquele me faria chorar. E não foi. Lembrei dos meus quatorze anos, quando eu me apaixonei por um loirinho que nem sabia o meu nome. E nem sabia das tantas vezes que o nome dele aparecia no meu diário e nem do sonho que eu tive, em que ele me abraçava forte e prometia nunca me abandonar.

Também estou lembrando daquele cara que conheci mês passado e de como achei que a gente tinha uma conexão telepática-fisico-espiritual, e que dessa vez podia dar certo. Mais bobagens, eu suponho. Bobagens das quais não me arrependo, nem de ter vivido, nem de ter sonhado. Bobagens sem sentido, mas com toda a razão que uma paixão pode ter. E o que seria da vida sem as paixões? O que seriam das paixões sem as bobagens?

Eu só sei que eu prefiro mil vezes um coração partido a um vazio. A gente tem que correr riscos, tentando, amando e quebrando a cara. E não importa se a gente tem quatorze, vinte e três, ou cinquenta e quatro anos. Sempre vai ter alguém que pode tirar o seu chão só por não estar por perto. E a isso chamamos bobagem. Ops, amor.