Dor de Barriga

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We Heart It

Lili sentiu uma dor terrível na barriga, a pobrezinha. Quem mandou comer tantos doces na festa de aniversário? A mãe, hipocondríaca como de costume, a levou ao médico. A fila estava imensa, mas Lili não entendia o motivo, já que aquele pessoal todo não estava na festa da Ritinha, como ela e a mãe estiveram há vinte minutos. Será que esses convidados apareceram enquanto ela brincava de gangorrar com o Miguel? Será que foi por isso que o brigadeiro acabou tão rápido? O hospital estava cheio de gente aguardando atendimento, e a menina pôde perceber que as pessoas estavam tristes. Talvez elas também estivessem sentindo dor por ter comido muitos doces e talvez também tivessem bebido refrigerante demais.

A menina não era nada paciente, só sabia que queria ficar boa logo e ir para casa. Batia rápido os pezinhos um no outro e, a cada cinco minutos, perguntava à mãe se ia demorar muito. E pelo jeito, ia mesmo. Já nem se lembrava o que estavam fazendo ali.

– Vamos embora, mamãe?

– Espere. Seja paciente.

– Quero ir embora.

– Espere. Quieta.

Mamãe não levantava a voz, mas segurava seus punhos firmemente. Lili se sentia presa e um nó começou a formar em sua garganta.

– Mamãe…

– Qui-e-ta.

Mesmo tendo apenas quatro anos de idade, ela segurava o choro como uma adulta. Não queria envergonhar a mãe ou a si mesma. Deve ter ficado vermelha como um pimentão, mas pelo menos engoliu as lágrimas, o nó, o grito e tudo mais que queria sair. E então, finalmente, um médico apareceu no fim do corredor, olhou no fundo dos olhos de Lili e caminhou em direção a ela. Assim, como num passe de mágica. Atravessou a recepção do hospital, ignorou todos os outros, leu o desespero estampado no rosto da menina. Seu pedido de socorro silencioso tinha funcionado, uma alma boa no universo estava ali para salvá-la. O doutor tinha um sorriso sereno. Ela esperava que ele lhe dissesse: “Você está curada, agora pode ir.” Mas ele se dirigiu à mãe e declarou:

– É grave, teremos que operar.

Lili não entendia direito. Sabia que operar era o tipo de coisa que adultos fazem para não morrer e que, ao mesmo tempo, podia ser a causa de sua morte.

– Mas eu não quero. Eu não estou morrendo. Eu não estou morrendo não é, mamãe?

– Ok. Vamos em frente. – disse a mãe, consentindo com o médico.

A mãe não a ouvia, se dirigia ao doutor. Era como se a menina fosse invisível, quase como se já estivesse morta.

– Mas…

– Tudo bem, querida. Vai ser só uma picadinha. – o doutor tentava inutilmente a tranquilizar.

Será que pensam que criança não tem inteligência?

Os olhos da pequena se encheram de água e logo começaram a transbordar. Então, compreendeu que aquilo tudo era uma armadilha: A mãe a levara para uma cirurgia sem ao menos consultá-la, o médico se fingia de bonzinho para enganá-la, ninguém queria ouvir a sua opinião. Se sentia traída. Olhou em volta e não enxergou ninguém que pudesse ajudar ou que, ao menos, tivesse pena dela. Olhou para mãe e viu seu rosto permanecer frio e duro como pedra, rosto este que fora um dia tão amável. E de repente ele se transformou em uma caveira, e logo depois toda a mãe era um esqueleto que insistia em encarar a menina. Lili procurou buscar auxílio no olhar do médico, mas ele também havia se tornado um esqueleto frio. E quando deu por si, a pobre menina estava cercada de esqueletos e viu que o hospital estava lotado deles, um exército de esqueletos cruéis e apavorantes. Estava amedrontada, não podia confiar em ninguém. Só lhe restava fugir, pois a essa altura, lágrimas grossas saltavam de seus olhos. Mas, ao fazer menção de levantar, o monstro que havia sido médico há dez minutos, virou-se em sua direção e a impediu.

– Está na hora da cirurgia. – sua voz era mórbida e sem vida. – Está na hora, Aline!

– É Lili! Todo mundo me chama assim! – ela berrava, desesperada.

– Está na hora, Aline.

– Está na hora… – repetiu o exército de esqueletos, todos olhando na direção da menina.

O médico-esqueleto ou esqueleto-médico tirou de algum canto uma serra elétrica e avançou na direção de Lili.

– Vai ser só uma picadinha…

E então, ouviu-se um trovão muito alto. E Aline acordou.

É preciso falar dessa saudade

Rosquinhas, café com leite, bolo de farinha de trigo e pão de queijo – feitos com ovos a menos, que é pra economizar. Biscoitinhos que derretem na boca e café amargo. Queijo caseiro de leite mineiro da roça, marcado com a textura do pano de prato em que foi embrulhado antes de ficar pronto. Doce de leite, biscoito frito, pão sovado – duro, de tanto ficar guardado no armário. Doce de mamão eu não comia, achava que era ruim sem nunca ter experimentado (que arrependimento!). E não almoçava quase nada, preferia me empanturrar com os lanches de casa de vó, cheios de doçuras e mineirices. Minhas tardes se resumiam a várias colheres de doce, assim como o bolo e as rosquinhas com manteiga que ela levava ao sofá em um pratinho. Especialmente para mim. Dizem que é assim que se cria uma criança mimada. Para mim só podia significar uma coisa: carinho.

Eu e vovó passávamos tardes inteiras assistindo a programas de auditório e novelas mexicanas na TV (A Usurpadora etc). Ás vezes ela me pedia para ir correndo pegar um papel e uma caneta e anotar os números da Tele Sena, na qual metade do seu dinheiro era gasto. A outra metade ia para os cigarros.

De manhã, eu tinha oficialmente – como um acordo silencioso entre nós duas – o direito e a posse sobre o controle remoto da televisão. Afinal, era a hora dos desenhos animados. Só na casa da vovó é que eu podia assistir a Tom & Jerry, Pernalonga, Papa-Léguas, Piu-Piu e Frajola e outros tantos que minha mãe não deixaria por considerá-los nocivos para a formação de uma criança. Enquanto isso, vovó escutava a missa do Padre Marcelo Rossi no rádio e depois vinha trazendo água benta para que eu bebesse. Aí eu dava um golinho de nada e ela reclamava:

– Bebe tudo que essa água é de Deus! Vai te fazer bem!

E quando eu esquecia dos desenhos infantis e decidia explorar o jardim, ela gritava meu nome lá da sala de televisão:

– Vem ver o filminho! Começou o filminho!

Eu corria até lá e a encontrava sozinha na sua poltrona preferida, bem de frente para a TV. Eu deitava no meu lugar de sempre e assim compartilhávamos horas e horas do mundo mágico que havia dentro daquela caixinha chamada televisão.

Sinto falta do estalo que ela fazia com a boca quando queria tirar alguma sujeira do dente e que, com o tempo, acabou virando mania. Um jeito de que eu soubesse que ela estava por perto, ou pelo menos era assim que eu identificava a sua presença. Era isso e o arrastar de chinelos. Sinto falta do gesto que ela fazia ao ajeitar o topete e reclamar que precisava pintar o cabelo de novo. Ou as unhas, que quase sempre mantinha em cor de rosa choque. Era vaidosa, mas quase não saía de casa, a não ser em ocasiões muito especiais como casamento ou aniversário de alguém da família.

Na festa de aniversário de um ano do meu irmão, eu e minha mãe convidamos a vovó e o vovô – então divorciados e praticamente sem se ver há, pelo menos, vinte anos. Vovó apareceu na festa toda maquiada, de salto e joias. Todos repararam no clima. Meu avô, todo sem graça. Minha avó, muito emperiquitada. Acredito que, como não se viam a muito tempo, não sabiam como o outro ia parecer. Em determinado momento, ela chegou do meu lado e disse baixinho:

– Nossa, seu avô tá um caco! Envelheceu demais, credo!

Era áspera nas palavras e doce nas atitudes. Acho que herdei isso dela.

03 de outubro

No dia 03 de outubro de 2007, eu saí da escola e fui para a casa da minha avó. Era uma coisa que eu costumava fazer quando estava brigada com a minha mãe. Quem nunca se refugiou na cozinha da avó para não ter que encarar os pais que atire a primeira pedra.

Mas neste dia, em especial, exatamente às 17h30min eu saía da escola e subia a pé pela Rua 10 de abril com uma expectativa diferente. Uma sensação nunca antes experimentada. A ansiedade de ser apresentada a uma pessoa que já considerava meu amigo íntimo pelos últimos nove meses: meu irmãozinho.

Cheguei ao portão da vovó disse:

– E aí.

– E aí? Que frieza é essa, menina? – Ela estava muito ansiosa, sentada na varanda esperando por mim para irmos juntas ao hospital, apesar de já ter conhecido o bebê e de ter passado o dia inteiro lá com a minha mãe.

– Que isso, tá louca? Tô de boa, não viaja não. Bora?

Ela olhou para mim, pasma. Talvez achasse que eu chegaria pulando de alegria e ansiedade e implorando para irmos logo. Mas eu, no auge dos meus doze anos, procurava não demonstrar tanto o quanto aquele acontecimento era importante para mim. Afinal, eu estava mesmo de boa.

Não demorou muito e chegamos ao hospital – cidade pequena, sabe como é, só atravessamos a praça e já tínhamos chegado. Minha avó havia me instruído a dar os parabéns à minha mãe quando chegássemos. Acho que ela queria se certificar que eu seria educada naquele momento tão delicado. Respondi à altura:

– Ih…Relaxa, vó.

Quando entramos no quarto, eu ainda sentia o peso da obrigação de parabenizar minha mãe, quando o choque me paralisou. Parei na porta. Um pequeno ser humano muito vermelho e enrugado me encarava, e eu o achei a coisa mais linda do universo. Minha expressão deve ter sido de total encantamento, porque pude ouvir a minha mãe rindo da minha cara na cama ao lado. Aí me lembrei que tinha que parabenizá-la e o fiz o mais rapidamente que pude (desculpe, mãe) para poder observar aquele serzinho de perto.

Heitor Eduardo Marques de Oliveira Ferreira tinha os olhos arregalados e fixados em mim. Era tão lindo… E tão pequeno. Eu não gostava de bebês ou crianças menores até aquele exato momento. Me aproximei do berço, devagarzinho e com o coração saltando.

Eu não sabia lidar com tanta fragilidade. Mas aí ele segurou o meu dedo e não quis soltar, foi quando eu pensei: “Garoto, você é forte. Vamos ser bons amigos.”

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No buraco negro do País das Maravilhas

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Aline estava acostumada a sempre se sentir na borda de um buraco negro, pronta para ser engolida pelo caos. Sempre se sentia gravitando por algum lugar em que seus pés não alcançam o chão – porque, às vezes, o chão sequer existia. Não porque vivesse intensamente uma vida boêmia de drogas e amores clandestinos. Na imaginação talvez, mas não na vida real. O fato é que vivia em um mundo tão cheio de perigos e possibilidades (o mesmo mundo que você vive!) que preferia se arriscar a apenas, digamos…a nada. Quero dizer, nada que lhe exigisse ser simpática, sociável ou realizar qualquer esforço.

Apesar disso, escolhia acordar às sete da manhã quase todos os dias. Não porque precisasse sair para trabalhar – e nem porque tinha algum outro compromisso. Simplesmente gostava de sentir a brisa fresca da manhã na pele descoberta. Também lhe agradava a sensação de se levantar ainda sonolenta e ir, bem vagarosa, até a cozinha. Comer bolo de fubá com canela e beber chá de camomila bem quente. Nada de café, que desperta e marca o início de um dia cheio de atividades. Tomava chá de camomila, pois queria se manter quase adormecida. Ainda sonhando. Não acordava tão cedo para simplesmente realizar tarefas que, no seu ponto de vista, eram banalidades e perca de tempo.

Não queria realmente acordar, só queria se levantar para manter-se em estado de sonolência durante o resto do dia. Já que, depois do chá da manhã, seguia de volta para o quarto e se enfiava novamente debaixo do edredom. Ali permanecia por muitas horas, alternando seus afazeres entre cochilar, ver filmes, escrever ou ler um capítulo de um livro fantástico. Era quase um ato ritualístico. Sentia vontade de passar 24 horas por dia lendo livros ou assistindo a filmes. Ou seja, vivendo em outra realidade. Se tornando outras pessoas e às vezes até se preocupando com problemas que não eram os seus. Mas isso era um alívio, assim não se preocupava em ter que resolvê-los. Só avançava  na história, cada vez mais ávida por vivê-la, cada vez mais envolvida. E, sem que percebesse, já não era Aline. Era qualquer outra.

Já o cochilo, era necessário e até bastante útil: fazia com que a fantasia das ficções penetrasse mais fundo na memória. Fazia com que sonhasse, dormindo e acordada. Fazia com que, independente do mundo lá fora, seu próprio mundo acontecesse dentro de si. E, com gosto de camomila na boca e uma mente banhada em histórias inventadas, a moça inventava, nos sonhos, suas próprias fábulas e aventuras.

Aline considerava a vida acordada muito sem graça. Ao olhar em volta não reconhecia o lugar onde morava como seu lar, e de repente não era mais ela mesma no espelho. Como num passe de mágica, a vida real começava a se desfazer e a parecer só um sonho. A realidade paralela das histórias que lia e assistia eram a sua verdadeira realidade. Não se imaginava em um futuro distante, muito menos casada e com filhos, casa e carro – o que, aparentemente, era tido como uma meta para a maioria das pessoas.  O tempo se arrastava e ela apenas vivia sendo levada pela maré, esperando por um futuro indefinido e que nunca chegava. E esperava, esperava e continuava esperando, desde…sei lá, sempre?

O nosso amor é um bloqueio criativo

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Das coisas que você faz por mim – e que eu não sei retribuir: Me mimar, me cantar, me adorar. Eu não vou te amar mais por isso, então pare. Eu te amo e não sei te amar. Só sei que enquanto eu escrevo isso meu corpo sente a sua falta. Mas não posso romantizar o nosso romance.

Não, eu não vou dizer “sim”. Eu não vou prometer nada. Nem vou dizer que vai ficar tudo bem, e muito menos te dar certezas. Não tenho certeza nem de mim, do que eu sou e do que vou ser. Do que eu quero ou do que posso posso desistir. Só sei que não quero ter certeza de nada – nem mesmo de você. A vida é mais legal quando a gente corre riscos.

Só toma cuidado para não me derrubar – eu sou mais frágil do que pareço.

Só toma cuidado para não me sufocar – eu sou mais forte do que pareço.

Você me diz que eu não lhe dou atenção. Mas eu digo: É você que não percebe quando eu me faço de desatenta. Que eu faço piada para me importar menos.

Você diz que eu me escondo. Mas eu nunca me mostrei tanto. Então não é esconderijo, é o que eu digo: Sou um mistério até para mim.

O nosso amor é uma folha em branco em que há tanto para ser dito. Tantas possibilidades. Eu não sei fazer poema e quase não escuto músicas de amor. Esses sentimentos vão muito além das palavras. O nosso amor é um bloqueio criativo.

Carta para dizer ao meu amor que eu sou mais forte do que pareço

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Meu bem, não entenda mal o que vou dizer agora. Eu preciso admitir que sinto muito medo. E não é medo de que a gente acabe. Eu sei que vai acabar um dia, e aceito isso tranquilamente – por mais que eu te ame, não acredito em “para sempre”. Meu medo é de te amar mais ainda. De um dia não conseguir viver sem você. Acima de tudo, tenho medo de depender de alguém e de esquecer como é ser feliz sozinha. Mais uma vez: não me entenda mal. É que eu gosto MUITO de ficar sozinha.

Sempre me virei assim, livre para cuidar de mim mesma. E talvez por isso, nunca tenha aprendido a cuidar de ninguém. Desde pequena fui do mundo, cachorro vagabundo. E agora me aparece você, querendo me amparar a cada tropeço – e são tantos. Sempre pronto para ser uma terra firme justo a quem nunca teve raízes. Você vem assim, me fazendo cafuné quando eu faço cara de choro e me dando mais carinho do que mereço ou consigo retribuir. Eu me apaixono cada vez mais, ao mesmo tempo que penso que não faria nem metade do que você faz por mim, porque sou estupidamente egoísta. Fui criada para aprender a cuidar de mim e só de mim.

Ás vezes, o meu medo se disfarça de autodefesa e insiste em perguntar: Vou continuar sendo a mesma, apesar de você? Não quero deixar de ser livre por ninguém, entende? Gosto de me sentir sozinha e de ter que resolver problemas sozinha, o que faz com que eu me sinta mais forte e corajosa. É bom ter alguém do nosso lado de vez em quando, mas não me segure a cada tropeço porque eu não me importo em cair. Eu sei levantar. Com ou sem você.

Você é a minha notificação preferida

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O celular vibra e eu nem me assusto. É você, a minha notificação preferida. Por incrível que pareça, eu sempre sei quando é você. Aquele que envia a mensagem certa na hora exata, e que sempre sabe o que dizer quando eu preciso de palavras gentis. Às vezes você também manda mensagem quando eu já nem lembro mais qual era o assunto, já nem lembro mais qual era a resposta. Aí eu lembro. Lembro de você e da gente. E sorrio, toda vez.

Há um tempo, me disseram que o amor aparece quando não se está procurando. E por muito tempo eu procurei, tanto e em tantos lugares errados. Eu realmente não sabia onde buscar. Mas, um dia, alguém achou amor em mim. E eu achei isso bonito, sabe? Essa habilidade de se achar amor em alguém. De se deixar encantar pelo outro e não pela vontade que se tem de encontrar alguém que corresponda exatamente ao que a gente imaginou. Então decidi procurar amor nessa pessoa também. E, quando menos esperava, acabei encontrando. Encontrei amor em você. Meu lugar certo. O lugar que eu já tinha procurado tão rápida e distraidamente, que não enxerguei da primeira vez.

Foi tão devagarzinho e raro para mim, esse processo de encontrar amor em alguém e, consequentemente, encontrar-se em amor e encontrar-se em alguém. Meus pés queriam sair do chão, mas você soube me segurar no solo firme do nosso planeta. Plantamos flores nessa terra enquanto eu só sabia pensar – e desejar com muita força –  que, dessa vez, deviam ser sementes boas. Nada de ervas daninhas, hoje eu já nem lembro mais como era lutar contra elas. Porque o que é bom está crescendo: as nossas mudinhas, as nossas flores, os nossos galhos, os nossos sonhos, os nossos delírios, os nossos planos. O nosso jardim. Obrigada por ser parte de mim.

O balanço dos velhos

O velho trocador de ônibus que nunca sonhou em ser trocador de ônibus observava atento a qualquer movimento. As horas corriam despercebidas dentro dele, o vento arejando os pensamentos. Os outros velhos – passageiros da dianteira do ônibus – se balançavam no ritmo dos quebra-molas.

Um deles tinha uma postura que deixava dúvidas se era fisicamente corcunda ou só envergada pelo peso do tempo. Quando não estava olhando para baixo, estava olhando de baixo – mas sempre com curiosidade. A sua idade também não era clara. Podia ter de 60 a 80 anos, tudo depende do que viveu e do quesito estar ou não estar “bem conservado”. Eu me lembro de ser criança e escutar os adultos falarem a respeito dos velhos.

–  Aquela ali está acabada, coitada…

– Nem me fale! Mas aquele outro está até bem conservado. Quer dizer, para a idade, não é mesmo?

– Sim, é um coroa muito enxuto.

De qualquer forma, não era o caso desse senhor em particular. Inclusive, olhando de relance poderia até se pensar que se tratava de um morador de rua. Talvez pelo modo suplicante de olhar, pela postura de quem se retira da sociedade por acreditar não ter mais espaço ali. O homem era quase um bufão em fim de carreira, um Quasímodo decadente.

O ônibus parou e subiu um outro senhor, de camisa social e gravata, pasta de couro e cabelo grisalho. Era um homem de negócios e, esse sim, um senhor “enxuto”. Tinha a expressão cansada de quem trabalhou o dia inteiro. Não cansada da vida, como o outro. Mesmo sendo tão distintos, os dois pareciam ter a mesma idade.

O homem de negócios era mais alto e despertou o olhar de admiração do velho corcunda assim que pisou no ônibus. Passou a encará-lo quase com idolatria, o que deixou o homem desconfortável. Este evitou o olhar, tentou fingir naturalidade e, por mais que tentasse, não conseguia deixar de sentir um misto de asco e pena daquele velho esquisito. Por fim, resolveu passar pela roleta – mesmo não precisando – e ir para a parte de trás do ônibus, para bem longe daquela criatura estranha. Criatura esta que o acompanhou com o olhar até que sumisse no meio da multidão, porque ônibus lotado e multidão é a mesma coisa.

Ainda insistiu, por alguns instantes, em procurar o senhor de negócios: queria invejá-lo, admirá-lo, imaginar o que é que ele tinha feito de diferente para estar ali. Mas não o encontrou mais, tão cheio o transporte. E então se conformou. E voltou a fitar o vazio.

Procura-se: ar fresco

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Respirar parecia mais difícil do que já fora um dia. Marina acabara de comer um hambúrguer e algumas batatas fritas. O vestido lhe apertava o estômago e a calcinha ardia nas coxas. Se levantou da cadeira e foi em direção ao banheiro, para se debruçar na privada e colocar todo o lixo para fora. Mas não funcionou, faltou coragem.

Talvez o que quisesse fosse só sair um pouco daquele lugar, ter alguma distração ou adrenalina. Estava no escritório de advocacia, presa com um bando de animais que não faziam ideia de quem ela era de verdade. Aceitara o emprego por conveniência e, claro, pelo dinheiro. Pensou que pudesse ser um jeito melhor de passar o tempo que não fosse ficar deitada no sofá o dia inteiro assistindo a vídeos de receitas. Primeiro, porque ela nunca sequer tentou fazer nenhuma daquelas receitas. Segundo, porque aquela atividade lhe dava fome. E terceiro porque, mesmo que se dispusesse a cozinhar, não teria dinheiro para comprar os ingredientes. Ter um emprego era, realmente, uma necessidade. Mesmo que tivesse que passar horas em uma jaula escura e fedorenta – era assim que encarava o escritório.

Carregava um fardo diário de suportar o que a vida lhe empurrava goela abaixo. Além disso, não se sentia capaz de tomar suas próprias decisões ou de realizar qualquer coisa sem depender de algum tipo de influência externa ou boa vontade divina. As vinte quatro horas se arrastavam, assim como os sete dias da semana ou os doze meses do ano. Entre a lentidão, vários sentimentos agitavam dentro de si. Primeiro o tédio, depois a melancolia seguida do torpor. E logo vinha a baixa estima e a falta de energia, que resultava em preguiça no sentido mais amplo da palavra. Preguiça das pessoas. Preguiça de viver.

Finalmente a noite caiu e Marina pôde ir para a casa. No caminho, se entorpeceu de uma dose de Charles Bukowski no ônibus. Chegando ao apartamento escuro, não teve vontade de acender as luzes. Seguiu tateando até a cozinha. Bebeu um whisky, foi para a cama e chorou até dormir.

Não-sentimental

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Eu tenho raiva de mim todo dia. E me censuro pelas coisas estúpidas que faço o tempo todo. Como manter a minha dieta por apenas algumas horas.

Odeio quando sou rude com você. Acredite, dói mais em mim. Odeio o modo como eu desprezo seu amor e digo que não importa o que você sinta por mim, isso não vai solucionar os meus problemas. Eu odeio não dar prioridade aos meus amigos, eu odeio não dar prioridade às minhas vontades. Vejo a vida passar enquanto faço planos demais e não consigo concretizar nenhum. Começo mil projetos – na minha cabeça – o tempo inteiro. E é tão difícil lidar com essa minha mente. Entende? São tantas vontades, não cabem em uma planilha do Excel. Não sei administrar, não consigo me organizar. Enquanto isso, o tempo voa.

Tudo me irrita, inclusive esse seu ritmo devagar. Lento, como se quisesse me acalmar. Funciona por algumas horas até que você se vá. E sem sua presença eu só sei enlouquecer e me perder entre as listas que faço de tarefas a serem cumpridas, listas eternas e nunca finalizadas. Não tenho disciplina, não sou autodidata, quando é que vou me conformar? Quando é que vou me conformar com o fato de que a única coisa que eu sei fazer além de escrever alguns parágrafos, é assistir filmes e ler livros? A vida podia ser só isso. Inclusive, foi por isso que dispensei a minha terapeuta: para ficar em casa assistindo Netflix. Quer jeito melhor de aproveitar o tempo?

Lembrei de mais uma coisa que eu odeio: Estar apaixonada por você. Isso me leva para o conforto e o alívio, para as tardes de bobeira, comendo chocolate na sua cama e rindo de piadas sem sentido. Mas eu não quero me sentir aliviada. Eu não quero relaxar, entende? Sinto a vida passando rápido demais e sinto que tenho que vivê-la, que tenho que senti-la, antes que ela escape. É uma questão de milésimos de segundo, a nossa existência. Você percebe? Eu só quero cumprir todas as tarefas da minha agenda e ainda ter tempo para sonhar, cantar, dançar e ir ao teatro. Eu não consigo nem cumprir as tarefas da minha agenda, imagine só o resto. Imagine só se tenho tempo para as coisas mais importantes (não tenho). Quase sempre me sinto como uma velha que perdeu o vigor da juventude. Eu só queria dançar. Mas não tenho mais toda essa energia.