A Estrela dos Desejos

Imagem de summer, orange, and starfish

Lara veio correndo, berrando e pulando até o portão da casa da amiga e meteu logo o dedão na campainha. Ding dong. DING DONG! DIIIDING DOOONG!

– Ninaa! Ninaaaaaaaaaa! Nina, corre aqui!

Tinha nove anos e sabia que possivelmente teria feito a maior descoberta de sua vida. Embora nunca tivesse saído daquela cidadezinha do interior de Minas Gerais, trazia nas mãos uma estrela-do-mar. Não uma estrela-do-mar qualquer, uma estrela mágica. O tio lhe trouxera aquele objeto tão precioso de uma de suas viagens pelo país. Claro, o animal não existia mais, era só casca, mas para a menina era como um presente vindo do mar, um presente encantado e com poderes. Havia pertencido a uma das sereias mais bonitas do oceano e viajado milhas e milhas antes de estar ali, com ela.

Dona Rita abriu o portão e a encarou, mau humorada:

– O que foi, menina? Nina tá almoçando. Sabe esperar, não?

– Ah…Hm…Desculpa, Dona Rita. Deixa eu ir lá falar com ela? É urgente!

– Sei. Vai lá, anda.

Lara correu desembestada portão adentro quase derrubando a mulher, atravessou o quintal gramado – era um quintalzão de morro – entrou pela porta dos fundos e chegou à cozinha, sem fôlego. Encontrou Nina lavando a louça para a mãe.

– Nina! Eu aqui querendo te contar um troço importante e você perdendo tempo com essas coisas? Dá uma olhada nisso aqui! – mostrando a estrela, como se exibe um troféu.

– Nossa! Jesus amado, onde foi que você arrumou isso? Veio lá do mar, foi? Veio lá do mar de verdade?

Lara fez que sim com a cabeça, muito orgulhosa.

– Mentira…Tô achando que esse trem é de plástico, isso sim. Tá querendo me enganar e ainda fazer minha mãe me dar xingo né, safada?

– Que isso, Nina. Acha que eu sou falsa igual a Patrícia?

Nina olha bem no fundo dos olhos da amiga, bem no fundo mesmo. Patrícia, como diria sua mãe, era uma sirigaita ladra de namorados. Era também rival das meninas no colégio.

– Não fala o nome daquela invejosa na minha casa. – E depois, como que não dando importância para a tal da Patrícia, olha de novo para a estrela-do-mar. Seus olhos brilham. – Puuuxa… é bonita mesmo a bichinha, hein. O que ela sabe fazer?

– Nem te conto! Ou melhor, vamos lá para casa que eu te conto.

– Tá doida, menina? Tenho que acabar logo com essa louça.

– Ih, anda logo. Eu te ajudo!

Passados vinte minutos já estavam na casa de Lara, ou melhor, na “Casa da Árvore”. O lugar era, na verdade, um barraco improvisado debaixo de uma árvore gigantesca, tão grande que os seus galhos se curvavam de volta ao chão, protegendo-as parcialmente da luz do sol e da chuva, além de dar a aparência de uma grande toca. Elas usavam esse recanto secreto para brincar e contar segredos e, para deixá-lo ainda mais místico, chamaram-o de Casa da Árvore. Ficava no fundo do quintal da casa de Lara, ao lado da cozinha de fogão de lenha. Ali não podiam ser incomodadas.

Lara morava com a mãe e a avó, o pai já havia morrido, o avô também. Ela tinha ali o seu mundo particular, e muitas vezes gostava de dividi-lo com a melhor amiga. Costumavam ter seus encontros secretos, e esse, em especial, merecia uma reunião super confidencial. O único que talvez pudesse ser considerado bem vindo ali – além de Nina e Lara – era Leão, o cachorro. Um vira-latas pintado de várias cores. Fora adotado pelas crianças do bairro e vivia nas redondezas, passeando em todas as casas e passando muito bem, obrigado. Entretanto, mesmo se comparadas à outras crianças, Nina e Lara eram especialmente atenciosas com o cão, levando tapetes para cobri-lo nas noites frias e roubando pães e leite em casa para dar a ele. Por isso Leão não desgrudava das meninas, acompanhava-as por todos os cantos.

Nina estava agitadíssima de curiosidade:

– O que é, Lara? Qual é o tal troço super legal da estrela?

– Ela realiza pedidos.

– Ih, sei. Você também falou isso daquele vaso que sua mãe trouxe da tal feira em Belo Horizonte.

– Eu vou te provar! Ó, presta atenção que eu só vou mostrar uma vez.  – disse Lara, de olhos arregalados e expressão séria.

Pegou a estrela com todo o cuidado e a ergueu para o alto, braços bem esticados, como se quisesse colocá-la de volta no céu – apesar de ela nunca ter estado lá, porque não era esse tipo de estrela. Fechou os olhos e se concentrou:

– Eu desejo, de todo o meu coração e alma, poder conversar com os animais. – Abriu os olhos devagar e ficou esperando a mágica acontecer, extasiada de ter tido a ideia de pedir uma coisa tão sensacional como aquela. Ninguém poderia pensar em nada mais legal.

– Agora eu! – gritou Nina, ansiosa. Levantou-se num pulo e tomou a estrela da mão da outra. – Eu desejo…

– Não! Tem que levantar os braços que nem eu fiz, senão não adianta!

– Ah…tá bom. Eu desejo, de todo o meu coração de…de…

– E alma…

– Ah! Eu desejo, de todo o meu coração e alma…tá certo?

– Tá, mas você tem que se concentrar, uai.

– Tá bom, tá bom! – levantando as estrelas e fechando os olhos, repetiu – Eu desejo, de todo o meu coração e alma, poder me teletransportar para qualquer lugar.

– O quê? Tá falando sério? Que pedido mais ridículo!

– Ei, não fala assim!

– Porque não? É muito mais legal ir para os lugares de bicicleta. Todo mundo sabe disso, bobona.

– Você tá com inveja porque não teve criatividade de bolar um desejo tão legal que nem o meu. E eu duvido que o seu tenha funcionado.

– Mas é claro que funcionou!

– Então prova. Conversa com o Leão.

– Fácil. Leão, vem cá. – O cão obedece e Lara lança um olhar vitorioso  amiga.

– Só isso? – retruca Nina.

– Leão, meu xuxuzinho, me conta como foi seu dia.

O cão ficou em silêncio, olhando fixamente para ela. Menina e animal assim permaneceram por uns três minutos ou mais, em um silêncio às vezes interrompido por um “hm” ou “sei” da garota. Até que ela se levantou e disse:

– Leão disse que o dia dele foi e-xaus-ti-vo. De um tanto que você não imagina! Assim que acordou saiu para dar um passeio e, depois de um quarteirão encontrou uma cachorra linda, um pitel. Isso foi ele quem disse, tá? Só que tinha um problema, ela estava presa na coleira, passeando com a dona. Aí ele resolveu andar atrás delas por um tempo, até que foi enxotado por aquela humana, a dona da cadela. E isso só porque estava dando uma cheiradinha nas partes íntimas da fêmea! Ficou arrasado, o coitadinho… A cadelinha foi embora e ele voltou para casa, solitário e amargurado, doente de amor…

– Coitadinho! E ele te falou isso tudo?

– Sim, senhora! E tem mais: Ele disse com todas as letras que acha um absurdo isso de cachorro ter dono. Que todo cachorro devia ser que nem ele, ir para onde quiser, ficar perto de quem quiser, mas não porque a coleira obriga. Disse que a cadela vivia muito infeliz, era uma donzela em perigo e que ele só queria salvá-la das garras daquela vida amargurada.

Nina abraça o cão, comovida com a história. E decide:

– Agora é a minha vez de testar se meu desejo foi realizado.

– Legal. Qual o primeiro lugar que você vai se teletransportar? Ó, tem que me levar junto também. Senão não vale.

E assim começa uma viagem. Durante toda a tarde, Nina e Lara visitaram uma floresta encantada de fadas, um lago de sereias, a Terra do Nunca, os bastidores do show de uma banda de rock, uma ou duas tocas de duendes e Júpiter, o planeta. Já quase escurecia quando perceberam que estavam com uma fome danada. Se despediram dos seus novos amigos e de Leão – que parecia aliviado por, finalmente, ter um pouco de sossego para tirar sua soneca de fim de tarde – e decidiram voltar para casa, porque sentiram um cheirinho gostoso de bolo de fubá vindo de lá.

Já na cozinha, sentaram-se à mesa e deliciaram-se com o bolo e vários outros quitutes que só quem mora ou já morou no interior sabe apreciar. Coisas que se come na infância, quando a avó faz, e depois nunca mais. As meninas relembraram entre si as aventuras vividas naquele dia e planejaram as próximas para o dia seguinte. A Estrela dos Desejos tinha lhes aberto um mundo de possibilidades.

Depois de muito bate-papo, vieram a chuva e a noite. Com elas bateu o cansaço. A mãe apareceu dizendo que já era tarde e que Nina teria que voltar para a casa, mas houve protestos, ao que decidiram que talvez fosse melhor que ela dormisse ali aquela noite, a chuva estava muito forte lá fora. Então a mãe mandou irem para a cama e mais uma vez as meninas protestaram, alegando que já eram bem grandinhas para ir dormir tão cedo – mesmo estando, na realidade, mortas de cansaço. Então a avó, apaziguadora como sempre, interveio dizendo que poderiam assistir a um filme antes de dormir. Disse isso porque sabia, com certeza, que as crianças acabariam pegando no sono antes da metade do filme. A mãe concordou e as meninas correram para o quarto, animadas em poder dormir juntas, pois assim também acordariam juntas para irem logo viajar com a Estrela dos Desejos.

No dia seguinte, o quintal amanheceu encharcado e o cheiro de terra molhada inundava o ar. Lara, sempre mais ansiosa, foi a primeira a acordar:

– Nina! Nina, tá acordada?

– Hm?

– Vamos levantar, vamos?

– Aham. – Nina virou para o outro lado e cobriu a cabeça com o travesseiro.

– Nina!

– Ai! Que susto! Pra quê tanta pressa, minha Nossa Senhora do Rosário!

– Vamos levantar para ver a estrela?

– A Estrela dos Desejos! – se anima, lembrando-se do dia anterior – É mesmo! Tinha me esquecido. Quer dizer, sonhei com ela a noite inteira, mas agora você me lembrou que foi mesmo real. A gente foi pra tanto lugar legal ontem, que eu nem sei mais qual pedido fazer.

– Eu sei, tô com umas ideias na cachola e quero testar agora. Vamos, levanta logo!

– Calma! A gente não vai nem comer antes? Tô com uma fome… – reclama, se levantando da cama e esfregando os olhos.

Lara revira os olhos.

– Tá bom, tá bom…

Depois de encherem as barrigas de pão de queijo, trocaram de roupa e foram animadas à Casa da Árvore. O dia ainda estava nublado e o chão encharcado e, para piorar, o que encontraram lá não foi muito animador. A Estrela dos Desejos estava no chão, afundada na lama. Lara se abaixou para pegá-la e percebeu que só havia um pedaço da Estrela. Ela estava quebrada, rachada ao meio e sem uma das pontas.

– Leão! – Gritou Nina, correndo para o cão, que estava deitado inocentemente na sombra da árvore, roendo algo.

Enfiou a mão dentro da sua boca e tirou de lá a ponta que faltava na Estrela dos Desejos, que nem mesmo se parecia com uma ponta de estrela-do-mar, de tão suja de lama e tão roída pelos dentes afiados de Leão. Poderia, até mesmo, ser confundida com qualquer uma das pedras do quintal. Ver aquilo partiu o coração das meninas.

– Lara…Acho que ele estava brincando com a Estrela dos Desejos.

Os olhos de Lara se encheram de lágrimas. Quis brigar severamente com o cachorro, mas sentia que qualquer palavra que dissesse se transformaria em choro. Então saiu correndo para dentro de casa. Nina ficou ali, sem reação. Só depois de alguns minutos decidiu ir ao encontro da amiga, no quarto.

A avó já estava lá a consolando. Lara chorava, abraçada ao travesseiro, e Nina se sentou no chão, ao lado da cama. A avó acariciava os cabelos da neta e dizia:

– Não chore assim, filha. Não chore assim por causa de simples objetos.

– Mas vovó… Não era um objeto qualquer, era uma estrela mágica! Ela me dava super poderes! Entende? Super poderes, vovó!

– Lara, se você acha isso, então tenho uma novidade para te contar: Todas as estrelas são mágicas. E todas as meninas tem super poderes.

Lara respirou fundo, tentando parar de chorar. Não entendeu muito o bem o que a avó tinha acabado de falar, mas sentiu que devia ser algo importante, como tudo que ela dizia. Então Nina se levantou e, na tentativa de deixar o clima e o domingo mais alegres, teve uma ideia:

– Já sei! Leão deve ter absorvido boa parte dos poderes da estrela e agora se transformou em um cachorro mágico!  É isso, só pode ser! Se ele estiver sempre com a gente quando formos brincar, ele vai ser, além de mascote, a nossa mágica. Todo mundo vai morrer de inveja quando contarmos lá na escola que temos um cão mágico, não é, Lara

– Hm…Parece legal. Mas agora não estou com cabeça para brincar com o Leão. Vou demorar muito para perdoar o que ele fez!

– Tenho certeza que daqui a pouquinho você muda de ideia, boba! Impossível ficar com raiva do nosso xodózinho. Ó, eu vou lá fazer as pazes com ele e te espero na Casa da Árvore, tá? – Disse confiante e foi caminhando em direção ao quintal.

Porém as horas se passaram e Lara não apareceu do lado de fora. Quando o sol finalmente surgiu, Nina levantou os olhos para o céu e seu coração se encheu de esperança. Logo Lara sairia para brincar. E esperou, e esperou, e esperou. Até que sentiu muita fome, já devia ser hora do almoço. Então despediu-se de Leão e foi para casa, sozinha.

Enquanto isso, Lara olhava a rua pela janela do quarto. O dia estava lindo, todas as nuvens cinzas haviam sumido e de repente fazia tanto calor que se tornara difícil manter o orgulho e ficar dentro de casa. Todas as crianças deviam estar brincando lá fora. Pensou mais uma vez no que a avó disse, procurando um significado: “Todas as estrelas são mágicas. E todas as meninas tem super poderes.” Lara também tinha super poderes? E Nina? Então se lembrou que podia conversar com os animais, o que fez com que a sua raiva sumisse imediatamente. Sentiu, de repente, que poderia fazer o que quisesse e foi correndo para o quintal encontrar Nina. Mas só achou Leão, abanando o rabo, feliz por vê-la. Ela também ficou feliz de vê-lo e disse a ele – telepaticamente, é claro – para irem encontrar Nina.

Então os dois saíram correndo portão afora, felizes sob a luz do sol, enquanto a mãe gritava:

– Lara! Lara, não vai sair sem almoçar! Lara!

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