Dor de Barriga

Imagem de anime girl, girl, and dark
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Lili sentiu uma dor terrível na barriga, a pobrezinha. Quem mandou comer tantos doces na festa de aniversário? A mãe, hipocondríaca como de costume, a levou ao médico. A fila estava imensa, mas Lili não entendia o motivo, já que aquele pessoal todo não estava na festa da Ritinha, como ela e a mãe estiveram há vinte minutos. Será que esses convidados apareceram enquanto ela brincava de gangorrar com o Miguel? Será que foi por isso que o brigadeiro acabou tão rápido? O hospital estava cheio de gente aguardando atendimento, e a menina pôde perceber que as pessoas estavam tristes. Talvez elas também estivessem sentindo dor por ter comido muitos doces e talvez também tivessem bebido refrigerante demais.

A menina não era nada paciente, só sabia que queria ficar boa logo e ir para casa. Batia rápido os pezinhos um no outro e, a cada cinco minutos, perguntava à mãe se ia demorar muito. E pelo jeito, ia mesmo. Já nem se lembrava o que estavam fazendo ali.

– Vamos embora, mamãe?

– Espere. Seja paciente.

– Quero ir embora.

– Espere. Quieta.

Mamãe não levantava a voz, mas segurava seus punhos firmemente. Lili se sentia presa e um nó começou a formar em sua garganta.

– Mamãe…

– Qui-e-ta.

Mesmo tendo apenas quatro anos de idade, ela segurava o choro como uma adulta. Não queria envergonhar a mãe ou a si mesma. Deve ter ficado vermelha como um pimentão, mas pelo menos engoliu as lágrimas, o nó, o grito e tudo mais que queria sair. E então, finalmente, um médico apareceu no fim do corredor, olhou no fundo dos olhos de Lili e caminhou em direção a ela. Assim, como num passe de mágica. Atravessou a recepção do hospital, ignorou todos os outros, leu o desespero estampado no rosto da menina. Seu pedido de socorro silencioso tinha funcionado, uma alma boa no universo estava ali para salvá-la. O doutor tinha um sorriso sereno. Ela esperava que ele lhe dissesse: “Você está curada, agora pode ir.” Mas ele se dirigiu à mãe e declarou:

– É grave, teremos que operar.

Lili não entendia direito. Sabia que operar era o tipo de coisa que adultos fazem para não morrer e que, ao mesmo tempo, podia ser a causa de sua morte.

– Mas eu não quero. Eu não estou morrendo. Eu não estou morrendo não é, mamãe?

– Ok. Vamos em frente. – disse a mãe, consentindo com o médico.

A mãe não a ouvia, se dirigia ao doutor. Era como se a menina fosse invisível, quase como se já estivesse morta.

– Mas…

– Tudo bem, querida. Vai ser só uma picadinha. – o doutor tentava inutilmente a tranquilizar.

Será que pensam que criança não tem inteligência?

Os olhos da pequena se encheram de água e logo começaram a transbordar. Então, compreendeu que aquilo tudo era uma armadilha: A mãe a levara para uma cirurgia sem ao menos consultá-la, o médico se fingia de bonzinho para enganá-la, ninguém queria ouvir a sua opinião. Se sentia traída. Olhou em volta e não enxergou ninguém que pudesse ajudar ou que, ao menos, tivesse pena dela. Olhou para mãe e viu seu rosto permanecer frio e duro como pedra, rosto este que fora um dia tão amável. E de repente ele se transformou em uma caveira, e logo depois toda a mãe era um esqueleto que insistia em encarar a menina. Lili procurou buscar auxílio no olhar do médico, mas ele também havia se tornado um esqueleto frio. E quando deu por si, a pobre menina estava cercada de esqueletos e viu que o hospital estava lotado deles, um exército de esqueletos cruéis e apavorantes. Estava amedrontada, não podia confiar em ninguém. Só lhe restava fugir, pois a essa altura, lágrimas grossas saltavam de seus olhos. Mas, ao fazer menção de levantar, o monstro que havia sido médico há dez minutos, virou-se em sua direção e a impediu.

– Está na hora da cirurgia. – sua voz era mórbida e sem vida. – Está na hora, Aline!

– É Lili! Todo mundo me chama assim! – ela berrava, desesperada.

– Está na hora, Aline.

– Está na hora… – repetiu o exército de esqueletos, todos olhando na direção da menina.

O médico-esqueleto ou esqueleto-médico tirou de algum canto uma serra elétrica e avançou na direção de Lili.

– Vai ser só uma picadinha…

E então, ouviu-se um trovão muito alto. E Aline acordou.

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