No buraco negro do País das Maravilhas

Imagem de girl, grunge, and blue

Aline estava acostumada a sempre se sentir na borda de um buraco negro, pronta para ser engolida pelo caos. Sempre se sentia gravitando por algum lugar em que seus pés não alcançam o chão – porque, às vezes, o chão sequer existia. Não porque vivesse intensamente uma vida boêmia de drogas e amores clandestinos. Na imaginação talvez, mas não na vida real. O fato é que vivia em um mundo tão cheio de perigos e possibilidades (o mesmo mundo que você vive!) que preferia se arriscar a apenas, digamos…a nada. Quero dizer, nada que lhe exigisse ser simpática, sociável ou realizar qualquer esforço.

Apesar disso, escolhia acordar às sete da manhã quase todos os dias. Não porque precisasse sair para trabalhar – e nem porque tinha algum outro compromisso. Simplesmente gostava de sentir a brisa fresca da manhã na pele descoberta. Também lhe agradava a sensação de se levantar ainda sonolenta e ir, bem vagarosa, até a cozinha. Comer bolo de fubá com canela e beber chá de camomila bem quente. Nada de café, que desperta e marca o início de um dia cheio de atividades. Tomava chá de camomila, pois queria se manter quase adormecida. Ainda sonhando. Não acordava tão cedo para simplesmente realizar tarefas que, no seu ponto de vista, eram banalidades e perca de tempo.

Não queria realmente acordar, só queria se levantar para manter-se em estado de sonolência durante o resto do dia. Já que, depois do chá da manhã, seguia de volta para o quarto e se enfiava novamente debaixo do edredom. Ali permanecia por muitas horas, alternando seus afazeres entre cochilar, ver filmes, escrever ou ler um capítulo de um livro fantástico. Era quase um ato ritualístico. Sentia vontade de passar 24 horas por dia lendo livros ou assistindo a filmes. Ou seja, vivendo em outra realidade. Se tornando outras pessoas e às vezes até se preocupando com problemas que não eram os seus. Mas isso era um alívio, assim não se preocupava em ter que resolvê-los. Só avançava  na história, cada vez mais ávida por vivê-la, cada vez mais envolvida. E, sem que percebesse, já não era Aline. Era qualquer outra.

Já o cochilo, era necessário e até bastante útil: fazia com que a fantasia das ficções penetrasse mais fundo na memória. Fazia com que sonhasse, dormindo e acordada. Fazia com que, independente do mundo lá fora, seu próprio mundo acontecesse dentro de si. E, com gosto de camomila na boca e uma mente banhada em histórias inventadas, a moça inventava, nos sonhos, suas próprias fábulas e aventuras.

Aline considerava a vida acordada muito sem graça. Ao olhar em volta não reconhecia o lugar onde morava como seu lar, e de repente não era mais ela mesma no espelho. Como num passe de mágica, a vida real começava a se desfazer e a parecer só um sonho. A realidade paralela das histórias que lia e assistia eram a sua verdadeira realidade. Não se imaginava em um futuro distante, muito menos casada e com filhos, casa e carro – o que, aparentemente, era tido como uma meta para a maioria das pessoas.  O tempo se arrastava e ela apenas vivia sendo levada pela maré, esperando por um futuro indefinido e que nunca chegava. E esperava, esperava e continuava esperando, desde…sei lá, sempre?

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