Cachorro solto

Por que é que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga.” C. Lispector

Chase em:

Um cão de rua rosnou para mim, atrevido. Andava como se pulasse, olhava como se adivinhasse. Era de um pêlo tão preto, que até brilhava à luz do sol. Me viu parada o observando e latiu, como quem diz “Sai da minha frente!”. Remexeu as folhas secas, farejou os portões das casas, correu de um lado para o outro. Sumiu e reapareceu – várias vezes.

Era pequeno, mas de repente resolveu seguir um homem que carregava uma mala enorme. Sabe-se lá pelo quê procurava, mas para mim parecia estar o tempo todo em busca de uma nova aventura. O vira-lata sempre mantinha a língua fora da boca, mas eu interpretei aquilo como um sorriso.

Sumiu de novo. Achei que tinha partido de vez. Até que apareceu, cinco minutos depois, descendo o morro em velocidade. Veio saltitante e sorridente, me dizendo com os olhos o quanto era feliz, o quanto era livre. E o quanto me desprezava por eu ser uma mera humana que transbordava de expectativas frustradas, enquanto ele, só tinha a obrigação de sobreviver.

“Paz deve ser isso”, pensei.

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