Momentos feitos de quases

negative/ positive space:

Hoje foi um dia comum. Acordei no horário de costume, fiz todas as minhas obrigações diárias, enfim. Quando o dia escurecia, eu me preparava para me despedir dele. Foi um dia comum, exceto por uma coisa: um momento. Ou talvez tenha sido mais a maneira como isso aconteceu. O modo como você olhou pra mim, e eu olhei pra você. O modo como nos olhamos e de repente estava tudo ali.

Seu olhar curioso a ponto de me desarmar, de me desvendar. E meu sorriso, contido nos lábios e escapando pelos olhos, só por te ver.

A gente sentiu um quase frio na barriga, um quase aperto no coração, um quase sentir. Me dei conta de estar quase apaixonada. Ás vezes acontecem dessas coisas malucas. Momentos assim que, mesmo tendo durado milésimos de segundo, perduram na memória por horas, dias, anos. Se repetindo milhares de vezes em nossas cabeças. Mesmo que nunca se repitam, mesmo que não venham acompanhadas de planejamentos, mas sim de intenções fantasiosas, esses momentos marcam. Persistem. Como uma queda gostosa em um brinquedo de parque de diversões. É gostoso e perigoso, mas acaba rápido.

Ás vezes acontece o inevitável. A mágica é tão forte que nos agarramos às lembranças, por mais simples que sejam. E criamos esperanças, por mais absurdas que pareçam. Então não se deixe esquecer de mim, meu bem. Me prenda na sua memória. Me procure, me queira e me tenha. E sinta de novo o que a gente quase sentiu naquele momento. Naquele momento em que eu quase te amei e, lá no fundo, quase doeu.

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A moça do escritório

Imagem de girl

Queria entender porque as pessoas são sempre tão mesquinhas. Porque se preocupam com as coisas menos importantes. Porque esqueciam que ela estava ali sozinha, e de todas as outras pessoas que estavam nos seus respectivos cantos, sozinhas. Em seus cantos nem sempre tão aconchegantes.

Escrevia na esperança de jogar fora aquela sujeira e escrevia na esperança de que alguém lesse – e de que isso talvez pudesse mudar o mundo. E as frases corriam e escorriam em sua mente, escapuliam por entre os dedos nervosos que batiam com pressa nas teclas e faziam um barulho enorme ao imprimirem as letras da máquina de escrever. Não havia back space naquele dia. E o que ela escrevia, as teclas que pressionava, estariam gravadas para sempre.

Daqui um ano, talvez, tudo fosse diferente. Alguém leria aquelas bobagens escritas erradas por causa da pressa e da quantidade de nível alcoólico no sangue e se perguntaria “Ora, quem escreveu isso? Em que mundo essa pessoa vivia?”. E todos ao redor ririam satisfeitos segurando seus copos de Whisky e fumando seus charutos, contentes com a nova piada da vez. A moça abaixaria a cabeça e omitiria o fato de ser o motivo daquela piada. Porque nada havia mudado e aqueles tolos sequer percebiam. Não percebiam que viviam todos exatamente como há cinquenta anos, porém com trajes diferentes. A moda muda, as pessoas continuam podres por dentro. É como um livro com várias edições, com a exceção de que a a gente sempre aprende mais com os livros.

Pegou seu copo de Whisky e tomou um gole caprichado. Sentiu um arrepio e se perguntou porque tomava aquilo. Mais uma moda? O gosto era horrível e a bebida deixava seu corpo mole, incapaz de raciocinar – ou teclar – com clareza. Queria que inventassem uma caneta conectada ao pensamento, cadê a praticidade toda da coisa? Seria fácil vender, basta dizer que não precisariam fazer nenhum esforço. Ninguém quer fazer esforço. Nem por si mesmo.

E quis dormir. Bebeu mais um gole generoso, digitou sua última frase – já que o álcool deixara seus dedos fracos também -, se debruçou ali mesmo, sobre a mesa do seu “escritório improvisado” e dormiu. Porque atualmente era o que lhe deixava feliz, estar dentro de si e dos seus pesadelos era menos aterrorizante do que viver no mundo real.

Cachorro solto

Por que é que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga.” C. Lispector

Chase em:

Um cão de rua rosnou para mim, atrevido. Andava como se pulasse, olhava como se adivinhasse. Era de um pêlo tão preto, que até brilhava à luz do sol. Me viu parada o observando e latiu, como quem diz “Sai da minha frente!”. Remexeu as folhas secas, farejou os portões das casas, correu de um lado para o outro. Sumiu e reapareceu – várias vezes.

Era pequeno, mas de repente resolveu seguir um homem que carregava uma mala enorme. Sabe-se lá pelo quê procurava, mas para mim parecia estar o tempo todo em busca de uma nova aventura. O vira-lata sempre mantinha a língua fora da boca, mas eu interpretei aquilo como um sorriso.

Sumiu de novo. Achei que tinha partido de vez. Até que apareceu, cinco minutos depois, descendo o morro em velocidade. Veio saltitante e sorridente, me dizendo com os olhos o quanto era feliz, o quanto era livre. E o quanto me desprezava por eu ser uma mera humana que transbordava de expectativas frustradas, enquanto ele, só tinha a obrigação de sobreviver.

“Paz deve ser isso”, pensei.