De repente neurótica

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Ei, eu sei que dou uma sumida às vezes, mas que tal se você viesse passear por aqui? Hoje, amanhã, ou em uma noite de domingo – eu queria mesmo era te ver sorrindo.

Que tal se você precisasse um pouquinho mais da minha atenção? Imagina se de repente eu chego em casa, cansada de não fazer nada, e (surpresa!) encontro você – na minha cama de solteiro. Me esperando, um dia inteiro.

Não faz mal, meu bem, você tentar fingir que não tá nem aí. Que nem gosta de mim tanto assim. Porque eu também finjo, o tempo todo – você não sabe, mas sou a maior fingidora de sentimentos de todas.

Eu sinto você sentindo a minha falta e sentindo que eu também sinto saudades de ser só nós. Saudade daqueles momentos em que a gente sente tudo e não sabe de mais nada – porque todo o resto já é página virada.

Saudade de não saber o que fazer, mas agir. E de não querer falar, mas sorrir. Porque os nossos silêncios já são tão barulhentos e os nossos malditos olhares nos denunciam o tempo todo. Das nossas bocas só saem mentiras, mas quais palavras vão importar agora que eu só penso em sentir seu cheiro de novo? E quase sinto, quando fecho os olhos e lembro daquele dia em que você me abraçou tão forte que eu quase me afundei no seu moletom quentinho.

O que mais me irrita é essa sua calma meio “relaxa que vai dar tudo certo”. Mas deixa eu te contar: eu não sei relaxar. Eu sou neurótica. E mesmo assim, adoro o seu jeitinho discreto-desinteressado de garoto blasé meio galã de novela, sabe? Não, você não sabe. É o seguinte: você me irrita e ao mesmo tempo me faz bem.

Eu nunca saberia lidar com alguém que resolvesse gritar aos quatro ventos o que sente. Eu fugiria, com certeza. “Você é escorregadia, geminiana”, foi o que li num desse sites de horóscopo. Mas você me deixa tão livre que eu sempre quero voltar. E mesmo sem saber, me deixa totalmente no escuro quando resolve não me procurar. Só pra me provocar. Só pra me enlouquecer. A ansiedade me comendo por dentro (e eu comendo a geladeira inteira).

Você não sabe se vai ou se fica e eu observo o jogo virando o tempo todo. De repente eu virei a cabra-cega dessa brincadeira. De repente eu me apaixonei. E nesse jogo não tem lei.

Aline e Aline: um diálogo

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Aline encostou a cabeça no vidro do ônibus e respirou fundo pela décima quarta vez. É duro ser sozinha. É duro querer carregar o peso do mundo nas costas e não receber recompensa por isso. Aline era sozinha. E não entenda mal o sentido da palavra. Tinha muitos amigos, é claro, e até um namorado. E também uma família grande – com direito a bichinhos de estimação. Mas ainda sim, era sozinha. Simplesmente por se sentir, por se considerar nessa posição.

Gostava de pensar em si mesma assim: uma aventureira pelo mundo, um espírito livre e vagante, a heroína de um romance. Mas especialmente nesse dia em que o sol estourava no céu sem nuvens e o cabelo pregava de suor na nuca, ela desejava que chovesse forte – pois achava que um clima nublado ficaria mais poético no filme da sua vida – e se perguntava quando poderia ser considerada (oficialmente) uma adulta. Já tinha vinte anos e poucas coisas haviam mudado desde os dezoito. Ainda morava com os pais, mas tudo bem, porque muitos de seus amigos também moravam. E também não ajudava com as despesas da casa. Até aí as coisas não iam tão mal, em breve arrumaria um emprego temporário, e depois outro emprego melhor, e depois… E depois?

Não eram as opiniões do “mundo dos adultos” que a incomodava. O que fez uma lágrima cair e se misturar com o suor do seu rosto enquanto escutava The Smiths, foi outro tipo de preocupação. Preocupava-se com a Aline de cinco, de dez anos atrás. O que ela diria se a visse agora? Será que aprovaria seu comportamento? Será que se decepcionaria? Era tão ambiciosa, a coitadinha. Engolia o mundo com os olhos. Queria tudo, queria mais do que tudo. Será que ela esperava mais da Aline “versão adulta”?

“Muito provavelmente”, concluiu a mulher (em formação).

Lembrou-se da menina ingênua que era. Ainda aos quatorze achava que um dia seria uma estrela do rock. Mesmo não sabendo tocar nenhum instrumento. Mas o tempo passou tão rápido… E continuaria a passar cada vez mais. Nenhum tempo de vida humana lhe parecia suficiente para tantas vontades, para tudo que guardava dentro de si.

Suspirou mais duas vezes e limpou as lágrimas. Decidiu que a Aline de dez anos atrás acharia que a Aline de agora não deveria chorar na frente dos outros adultos. Deveria ser forte, erguer a cabeça e seguir em frente.

“Ok, em frente. Mas para onde é em frente, exatamente?” pensou, e era quase como se perguntasse para sua pequena amiga. Era quase como se implorasse por uma resposta.

“Em frente é até onde o seu coração mandar.”, respondeu a mini-Aline.

“Você deve ter razão. Você era muito mais sábia do que eu sou agora, afinal.”

Aline não se sentia mais tão sozinha. Tinha a si mesmo e, ás vezes, isso é tudo o que a gente precisa.

Primeiros passos

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Ele soltou a minha mão e disse:

– Vai que o mundo é teu.

Mas eu não sabia para onde ir ou qual caminho seguir. Ele disse que o caminho estava dentro de mim. Eu ri e o chamei de brega, embora soubesse que é verdade. A minha força estava toda aqui dentro. Somos como uma fruta suculenta da qual não conseguimos tirar o suco por pura preguiça de espremer. E talvez essa não seja a melhor metáfora para explicar o quão rico é cada ser humano, mas acho que vocês entenderam.

Eu quis caminhar sozinha com o mundo todo pela frente. Mochila nas costas, medo no coração e muitas idéias na cabeça. Corri o mais rápido que pude para sentir o vento no rosto, mas em alguns trechos do caminho eu só parei e observei a paisagem. Ás vezes a gente precisa dar uma pausa, se dar conta do que já conquistou e agradecer. Só isso. E assim se abrem novos caminhos. Infinitos e distintos.

Eu tive medo de escolher, não queria abrir mão de nada. Mas depois descobri que a questão não estava em abdicar e sim em me descobrir. Eu, por natureza, devia pertencer a algum lugar. E lentamente, mas sem parar, fui chegando lá. Lá onde? Não se sabe, pois não existe um final. Eu caminhei sempre, não se chega nunca e essa é a maior recompensa. Os trajetos se alteram e os destinos não terminam.

Mas fui. Fui com tantas dúvidas – elas sempre vão existir – mas não me importei porque eu só precisava de uma certeza. A certeza do que eu quero. O desejo e a vontade de continuar. E isso é o suficiente.

Ele soltou a minha mão e disse:

– Vai, vai que o mundo é teu. Mas eu tô aqui te olhando tá? Se cair, eu te seguro.

Obrigada.