Uma noite mais preta do que café

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Em uma noite de lua nova, estava eu e minha companheira inseparável – uma xícara de café, pronta para adoçar e amargar a vida – mergulhadas nos cantos mais recônditos da imaginação, juntas nas horas mais sombrias, como de costume. Foi quando ouvi um barulho estranho. A princípio, imaginei que fosse o efeito da cafeína, que provavelmente já era mais presente no meu sangue do que os próprios glóbulos vermelhos. Fiquei alerta por alguns segundos, mas o silêncio se instaurou novamente.

Gosto muito de ficar assim, no escuro do meu canto. Com todas as cortinas fechadas durante o dia, e com a vista do céu estrelado à noite. O vento frio entrando, o barulho de poucos carros lá fora, às vezes o grito de algum bêbado. Mas nesta noite, em especial, o silêncio era quase absoluto. A única coisa que eu ouvia eram os meus dedos batendo no teclado do computador e, por um instante, aquele som. Já tinha esquecido, não me preocupava. Pelo menos não me preocupou até surgir de novo, de dentro do vazio, aquele barulho metálico. Dessa vez mais forte e mais irritante. E depois parou.

Resolvi fazer o que qualquer pessoa em sã consciência – e que acabou de ouvir um barulho estranho quando está sozinha em casa – faria. Liguei a televisão. Estava sendo transmitido o show do Metallica. Ótimo. Aumentei o volume e disse para mim mesma que era porque eu amava aquela música. Beleza. Tudo sob controle. Alguns minutos assim quando de repente ouço alguma coisa bem grande cair na cozinha. Puta que me pariu. Foi só uma panela, o meu lado sensato disse, tentando me tranquilizar. A xícara na minha mão já estava vazia. Chega de café, pensei. Daqui a pouco vou ter que ir para a clínica de reabilitação. Overdose e fortes delírios depois de sete xícaras cheias de café.

Eu precisava ir até a cozinha deixar a xícara. Na verdade, eu não precisava não. Mas eu queria ir, porque poderia ter um rato perambulando por lá. Ou um ladrão, ou um monstro, ou um disco voador. E como mulher adulta e responsável, dona de casa e solteira, eu tinha o dever de defender o meu lar.

Cheguei na cozinha com a xícara na mão e o coração na boca. Pé ante pé, fui abrindo caminho entre armários e vasilhas. Minha cozinha nunca foi tão grande e escura quanto nesses longos minutos. Acendi a luz e fechei os olhos, me sentindo estúpida. E então ouvi um miado, mais agudo e mais arrastado do que qualquer outro que já tivesse ouvido. Abri os olhos, olhei para a janela e respirei, surpresa e aliviada: Dois olhos verdes e felinos me encaravam, mas não eram olhos de nenhum monstro ou fera bestial. Era um filhote de gato que tinha surgido de algum lugar e entrado na cozinha pela janela aberta. Estava ainda mais assustado do que eu. Bem pequenininho e estabanado, já tinha derrubado um monte de utensílios e se preparava para fugir quando me ouviu chegar.

-Não foge não, neném! Vem cá…

Olhou para mim, superior e delicado, e pensou quinhentas vezes se valia mesmo a pena confiar naquela humana. Mas ao poucos, acabou cedendo. Veio em passos lentos e alguns minutos depois já estava aninhado no meu colo. Era uma bolotinha preta que continha duas esmeraldas verdes na cara, a princípio desconfiadas – como deve ser um gato que se preze – e depois muito acolhedoras. Tão acolhedoras que, a partir daí, foram acolhidas como as pedras mais preciosas daquele meu mundinho escuro regado a café.

E pode até ser que você ainda não tenha se convencido de que não tinha mesmo nada de ameaçador na minha cozinha. Pode ser também que você seja uma daquelas pessoas cheias de preconceitos contra gatos pretos de esmeraldas verdes na cara. Mas uma coisa eu posso lhe garantir: Depois dessa noite, eu, a xícara e a bolotinha preta vivemos felizes para sempre. Ou pelo menos por um tempo.

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Não existe paixão calada

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Resolvi começar um texto, mas não sei exatamente sobre o quê. Tenho tanto a dizer e nada a acrescentar. Ler os meus textos não vai mudar a sua vida, me desculpe decepcioná-lo. Tenho mesmo é necessidade de escrever. Qualquer coisa, que seja previsão astrológica falsa ou uma anedota sem graça. Que seja para contar sobre os pirralhos que vivem jogando bola lá na rua da minha casa, ou só pra falar mesmo do quanto eu sofro quando eu sinto assim tudo tão junto e tão rápido e tão intenso e tão devagar.

Eu queria mesmo era falar de você. Pronto, é isso. Por muito tempo evitei qualquer pensamento e bloqueei qualquer inspiração ou impulso que me fizesse escrever um texto sobre como você me faz sentir, sobre como você me deixa nervosa, perdida, com as bochechas coradas e tropeçando até no ar. Eu evitei sim, porque quando a gente escreve – e pior ainda é quando a gente fala ou grita aos quatro cantos para o mundo ouvir – os sentimentos se tornam ainda mais reais e fica muito complicado querer se livrar deles quando for preciso.

“Paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado”, já dizia Caio Fernando. Eu nunca segui o seu conselho. Nem ele mesmo seguia, afinal.

É por isso que sempre dá tudo tão errado comigo? Me explique, por favor. Me ensine a ser mais calma e mais sensata como você. Me ajude a ser menos louca e menos histérica e menos exagerada e impulsiva.

Queria tanto raciocinar nessas horas de desespero, queria tanto fazer o cérebro se sobrepor quando o coração ameaçar bater forte demais. Mas eu simplesmente não consigo e acho que até gosto desse meu descontrole temperamental. Desse meu jeito de perder to-tal-men-te o rumo do meu caminhar, dos meus pensamentos, das minhas palavras e dos meus sentimentos, quando te vejo andando na minha direção. É fácil me enlouquecer. Basta você existir perto de mim.

Um colo pra chamar de lar

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Aconteceu tudo da maneira mais clichê possível. Um cinema no domingo seguido de dois sorvetes de casquinha e de repente já estavam apaixonados. Ou talvez não tenha sido tão de repente assim. A verdade é que foi um amor que chegou de mansinho, como um botão de rosa que quase não se nota no início, que nem se imagina o quanto será bela. Mas floresceu. Talvez isso tenha acontecido em algum momento entre um “Quanto tempo!” no whatsapp e um beijo demorado na estação de ônibus. Floresceu como um sentimento que crescia a cada encontro, a cada expectativa.

Eles eram muito diferentes. Ela era a moça tagarela e destrambelhada que queria conquistar o mundo. Ele era o rapaz tímido do interior, mas que queria conquistá-la. E por serem tão diferentes, se completavam. Ela sempre procurava por caras com que se identificasse em comportamento ou personalidade, e talvez por isso já tivesse se metido em tanta encrenca. Ele não era o tipo de namorado com que ela sempre sonhou. Não era um aventureiro irreverente, tipo um Jack Sparrow do século XXI.  Mas era o que ela precisava e não sabia. Representava o contrário das aventuras e paixões intensas com que ela havia sonhado.

Ele era tranquilo, um porto seguro. Era a paz que uma menina cheia de confusões precisa. Era a mão que segurava a sua quando ela tropeçava na escada – e isso acontecia com muita frequência. Era o silêncio que dizia tudo quando ela precisava de respostas. Era o abraço cheiroso que a protegia quando tinha medo de ficar sozinha. Era tudo o que os outros não foram, porque era alguém que não ia embora. E por incrível que pareça, ela não queria que ele fosse. Se acostumou muito fácil com o conforto do colo dele. A tranquilidade da cumplicidade acalmava seu coração quando estavam longes um do outro. Ainda se pertenciam. E pertencer a alguém era uma sensação nova. Era como a calmaria e o voo dos pássaros depois de uma longa tempestade: um alívio.