Aline na noite

Já passava das duas da manhã quando ela chegou a um lugar cheio de luzes piscantes e pessoas aparentemente felizes e que gostavam muito de pular e gritar. Ou talvez só estivessem tão bêbadas quanto ela. Seu cérebro não conseguia distinguir mais do que vultos. Aline estava sozinha, e rodeada de gente. Tinha a impressão de que suas pernas se derretiam e de que sua cabeça girava. Naquele momento só conseguia pensar que não devia ter bebido tanta cerveja. Ah, não foi só a cerveja.

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A noite havia começado quando Aline saiu para se encontrar com Rafael, no boteco mais cool do bairro. O céu não estava tão estrelado quanto deveria e Aline não estava tão propensa a climas românticos. Estava mais preocupada em decidir a quantidade de absorventes que teria que colocar na bolsa para que uma tragédia sanguinária não acontecesse. Foi a pé para o bar. Era quase meia-noite, mas o lugar era tão perto que achou melhor não se dar ao trabalho de gastar dinheiro com transporte. Sentou-se na mesa no fundo e pediu uma cerveja. Rafael ainda não tinha chegado, mas não era surpresa que se atrasasse.

Alguns minutos depois e lá vem ele, com aquele sorriso de moleque que derreteria o coração de qualquer uma. Mas não o seu. Ela estava muito satisfeita sentada sozinha na mesa, bebendo sozinha a sua cerveja, pensando na vida e em quanto dinheiro teria que economizar para viajar no final do ano. Tão satisfeita, que não conseguiu esconder seu desinteresse ao ver Rafael. Pensava que se pelo menos ele lhe despertasse ódio ou nojo, a história seria mais interessante. Já tinha lido sobre paixões que brotavam de um sentimento desprezível da mocinha pelo galã.

Tinham se conhecido em uma festa de aniversário da prima de Rafael – e amiga de Aline. Depois disso, o de sempre: Trocaram telefones, se encontraram em outro bar qualquer, conversaram, se conheceram mais um pouco. O rapaz queria vê-la de novo. Ok, ela respondeu. A verdade é que só estava ali porque não tinha nada melhor para fazer. Se não fosse Rafael naquela noite, seria um seriado e muita pipoca.Era só o terceiro encontro e Aline tinha acabado de decidir que seria o último. “Ele é uma gracinha. Mas não é para mim.”

Enquanto Rafael contava do dia em que seu cachorro derramou coca-cola no vestido da vizinha, a nossa heroína triste planejava alguma forma de dar o pé na bunda do rapaz de sorriso – e conversa – de moleque. “Tem que ser rápido e indolor. E ao mesmo tempo gentil”, ela estrategicamente pensava. Não sei o que Aline acabou dizendo ao moço, mas tenho certeza que resolveu tudo bem rapidinho. Era perita nessas coisas. Só não sei se foi indolor.

Aline saiu do bar meio trôpega – depois de sabe-se lá quantas cervejas e de ter deixado o cara falando sozinho na mesa – pegou um taxi e disse:

– Toca para qualquer boate.Tô afim de dançar.

O plano de não gastar dinheiro com transporte tinha falhado, mas pelo menos ela ainda poderia se divertir.

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