Aline e Carlos, um casal desapaixonado

Imagem de 500 Days of Summer

Um senhor observava, sentado no banco de uma praça, um jovem casal abraçado alguns metros à frente. A primeira coisa que sentiu foi saudades da juventude e da sensação de se apaixonar pela primeira vez. O casal conversava, calmamente. Seu Benedito queria ser uma mosquinha para ouvir que tipos de juras de amor trocavam. A moça olhava para baixo, distraída, enquanto o rapaz, muito entusiasmado, lhe contava algum caso. Ele terminou sua história fenomenal e ficou esperando a reação dela. Mas ela não parecia notar, parecia perdida demais para se prender ao seu raciocínio.

Ela não queria realmente estar ali. Talvez não fosse um casal apaixonado, afinal. Talvez fosse só mais um homem apaixonado por uma mulher. Mas aquilo o interessou ainda mais, pois os homens mais velhos sabem tão pouco das mulheres quanto os homens rapazes. Seu Benedito se aproximou, com a cautela típica de que alguns senhores idosos são dotados, para tentar captar o real teor da conversa. Finalmente uma resposta da tal menina-mulher – que, aliás, se chamava Aline.

– Se ao menos eu tivesse coragem de te dizer… – Ela falava isso como se refletisse sozinha, mesmo que a frase tivesse acabado de despertar dois ouvintes atentos.

– O quê? – O velho pensou, o jovem disse. – Dizer o quê?

– Nada. Estava pensando.

– Pensando em quê?

– Em você.

– Em mim? – O moço deixou escapar um riso nervoso. – Eu estou aqui na sua frente, não precisa pensar. O que foi? Você está estranha. Olha para mim. O que foi?

– Eu não sei.

– Me beija.

– Eu não quero.

Ele a olhou assustado. Segurou tão forte os seus braços que doeu. E doeu por dentro também. Doeu ver o seu olhar que não compreendia o que para ela era óbvio. Era um fardo que carregava há anos: não conseguir amar ninguém.

– Desculpe, mas eu não quero. Eu gosto tanto de você… Me desculpe. Eu não sei dizer o que eu sinto, o que eu sei é o que não sinto. Mas sinto tanto. E sinto muito. Sinto muito não sentir nada por você. Eu não consigo, entende?

Carlos se retraía à medida que Aline falava. Abaixou a cabeça e engoliu seco.

– Sim.

– Tudo bem?

– Sim.

“Não”, Seu Benedito traduzia mentalmente o que o rapaz dizia. Aline respirou mais fundo. Quanto mais respirava, mais ar lhe faltava. Há muito tempo aquelas palavras estavam entranhadas em algum lugar dentro dela. Perdidas no fundo do estômago, esperando para serem vomitadas. Ela tremia e esperava que ele dissesse qualquer coisa. E ele disse:

– Então…

E Aline respondeu.

– Então.

A leveza da força

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Eu ando tão sensível. Sensível, mas não frágil. Sacou a diferença? Ando cheia de mim, ciente do meu poder no mundo. Corajosa. Mulher. Quando eu tentava me esforçar para mostrar que era forte e durona, aí que eu era frágil. A maior fraqueza é tentar se esconder. Se revestir de gelo e não deixar ninguém entrar. Não se entregar, não se desnudar. Viver no seu próprio mundo, e apenas nele. Isso é fraqueza. É preciso uma força gigantesca para doar-se. Doar-se é doer-se, acabei aprendendo. Isso porque compartilhar as suas fraquezas é a maior prova de força de um ser humano.

Então, quando digo que ando tão sensível, quero dizer que me sinto mais receptiva e aberta a novas possibilidades. Novos amores, novas viagens, novos sentimentos e descobertas. Estou disposta a me arriscar, a me jogar do abismo.

Ás vezes me enxergo empoeirada, com o coração e a alma cansadas de bater a cara no muro. De meter a cabeça na areia e da falta de ar que isso causa. Ás vezes esqueço quem sou e quem é realmente importante na minha vida. Aí minha vida se transforma em um rio calmo e lamacento que me arrasta para sabe-se lá onde, quando o que eu queria mesmo era navegar pelo mar bravio.

Acordo e faço tudo que “devo” fazer, o que esperam de mim. Sorrio para as pessoas – nem sempre, mas tento. Sigo a minha dieta corretamente – isso é mentira. Vou à faculdade, vou à festas, passo pelos lugares sem saber por que estou ali, passo por onde me levam. Vou com a maré e adormeço. Me deixo ficar dormente. Ponho o meu fone de ouvido e ignoro o mundo o máximo que conseguir. Não quero saber do carinha que está olhando para mim do fundo do ônibus. Não vou fazer esse trabalho hoje, porque ainda é para o final do mês. Não vou ler os livros maravilhosos que tenho na minha estante, porque vou ter a vida inteira para lê-los (será mesmo?). É mais fácil ouvir a música mais triste e pensar no meu ex.

Esquece, gata. Assim a vida não anda.

Nesse momento eu preciso que alguém – qualquer um, pode até ser você – jogue um balde de água fria na minha cabeça e aponte os meus erros. E me diga que eu preciso faxinar o meu coração. E que eu nunca vou esquecer o meu ex se eu não olhar para o carinha do fundo do ônibus. Ou do fundo da sala. Ou do meu lado. E que eu nunca vou saber o que eu quero e sair do mesmo lugar se eu não nadar contra a correnteza. Eu não posso deixar nada para depois porque a vida é feita agora, e cada momento é um presente, e cada presente jogado fora muda todo o meu futuro. Compromete os meus sonhos que já poderiam ter se realizado se eu tivesse a coragem de levantar a porra da bunda do sofá e ir fazer qualquer coisa que eu tenho vontade, mas que vivo adiando.

E esse texto é pra falar sobre isso. Tem que saber ser leve para não deixar as suas feridas te pesarem. Tem que ser leve, mas com direção. É pra mandar uma luz para todas as pessoas que se sentem perdidas às vezes – eu sei que você sente isso – e para dizer que há esperança. Cafona dizer isso, mas vou dizer. A luz não está no fim do túnel, amiguinhos. A luz está dentro de cada um de nós.

Aline na noite

Já passava das duas da manhã quando ela chegou a um lugar cheio de luzes piscantes e pessoas aparentemente felizes e que gostavam muito de pular e gritar. Ou talvez só estivessem tão bêbadas quanto ela. Seu cérebro não conseguia distinguir mais do que vultos. Aline estava sozinha, e rodeada de gente. Tinha a impressão de que suas pernas se derretiam e de que sua cabeça girava. Naquele momento só conseguia pensar que não devia ter bebido tanta cerveja. Ah, não foi só a cerveja.

.

A noite havia começado quando Aline saiu para se encontrar com Rafael, no boteco mais cool do bairro. O céu não estava tão estrelado quanto deveria e Aline não estava tão propensa a climas românticos. Estava mais preocupada em decidir a quantidade de absorventes que teria que colocar na bolsa para que uma tragédia sanguinária não acontecesse. Foi a pé para o bar. Era quase meia-noite, mas o lugar era tão perto que achou melhor não se dar ao trabalho de gastar dinheiro com transporte. Sentou-se na mesa no fundo e pediu uma cerveja. Rafael ainda não tinha chegado, mas não era surpresa que se atrasasse.

Alguns minutos depois e lá vem ele, com aquele sorriso de moleque que derreteria o coração de qualquer uma. Mas não o seu. Ela estava muito satisfeita sentada sozinha na mesa, bebendo sozinha a sua cerveja, pensando na vida e em quanto dinheiro teria que economizar para viajar no final do ano. Tão satisfeita, que não conseguiu esconder seu desinteresse ao ver Rafael. Pensava que se pelo menos ele lhe despertasse ódio ou nojo, a história seria mais interessante. Já tinha lido sobre paixões que brotavam de um sentimento desprezível da mocinha pelo galã.

Tinham se conhecido em uma festa de aniversário da prima de Rafael – e amiga de Aline. Depois disso, o de sempre: Trocaram telefones, se encontraram em outro bar qualquer, conversaram, se conheceram mais um pouco. O rapaz queria vê-la de novo. Ok, ela respondeu. A verdade é que só estava ali porque não tinha nada melhor para fazer. Se não fosse Rafael naquela noite, seria um seriado e muita pipoca.Era só o terceiro encontro e Aline tinha acabado de decidir que seria o último. “Ele é uma gracinha. Mas não é para mim.”

Enquanto Rafael contava do dia em que seu cachorro derramou coca-cola no vestido da vizinha, a nossa heroína triste planejava alguma forma de dar o pé na bunda do rapaz de sorriso – e conversa – de moleque. “Tem que ser rápido e indolor. E ao mesmo tempo gentil”, ela estrategicamente pensava. Não sei o que Aline acabou dizendo ao moço, mas tenho certeza que resolveu tudo bem rapidinho. Era perita nessas coisas. Só não sei se foi indolor.

Aline saiu do bar meio trôpega – depois de sabe-se lá quantas cervejas e de ter deixado o cara falando sozinho na mesa – pegou um taxi e disse:

– Toca para qualquer boate.Tô afim de dançar.

O plano de não gastar dinheiro com transporte tinha falhado, mas pelo menos ela ainda poderia se divertir.

Motivos desmotivados

I wish my dreams were reality.

Passando os meus dias à deriva, me deixando levar pela brisa que entra pela janela, mas que não me refresca. Fechei as persianas, mas o sol entrou mesmo assim. Não para me esquentar, mas para me abafar. Não sei que dia é hoje, e não me importa. Não quero que fique registrado o dia em que fiquei tão melancólica. Tenho muitas dúvidas, mas não me importa.

Sabe o que eu faço para melhorar? Vou no mercadinho do seu Bené e gasto todos os meus trocados em bombom Prestígio, que é a coisa mais doce que eu vou conseguir provar agora. Não me venha falar de motivos, meus motivos são todos desmotivados. Só quero ficar aqui. Deitada à meia-luz da minha cama fria, esperando por alguma coisa nesse estado sonolento em que o sonho aos poucos se torna a minha própria realidade.

Quero olhar o pôr-do-sol de cada dia como se fosse o primeiro, mas não quero reagir a ele. Estou exausta. De viver, de ir em busca do que a vida tem para me tirar e de encontrar desencontros. Não quero encontrar quem me faz perder. Não quero ter o trabalho de fazer dieta, acordar cedo, fazer amizades, ir à lugares interessantes, procurar emprego, me arrumar, conhecer homens, ser culta, ver os filmes do Oscar, do Kubrick, do Godart, ter opinião formada ou aprender a cozinhar. Tudo isso me cansa. Eu estou exausta.

Escrevi mais do que eu disse

Illustration vol. V bis

Ás vezes dá até vontade de seguir seus conselhos baratos do tipo “não seja louca” ou “siga seu coração”. Mas não consigo. E até hoje estou tentando descobrir qual é a cor exata do seu olho, porque ele sempre se fecha em consequência do sorriso que se abre quando me vê. E eu tentei te dizer que eu adoro o fato de você sempre repetir as mesmas camisas, porque eu adoro todas elas. E que eu tenho um medo sufocante de você ir embora do nada, desaparecer da minha vida sem avisar.

Eu adoro quando você se lembra das histórias que vivemos e das bobagens que eu disse um mês atrás – coisas que nem eu lembrava, considerando que eu falo muita merda o tempo todo. E eu queria te dizer tanta coisa, mas não dá pra te dizer isso olhando nos seus olhos, entende? Porque eu decoraria e repassaria meu texto com todas as intenções e entonações corretas – como uma boa atriz – e esqueceria tudo assim que te encarasse. A minha saída foi escrever, fazer o quê?

Escrever assim desse jeito desorganizado é, na verdade, uma tentativa de me organizar. Escrever sobre coisas que eu deveria dizer para alguém.

Eu queria te dizer que você pode voltar quando quiser. Pousar no meu colo e ficar. Não precisa ter medo de me amar, eu juro que sou legal. Posso até parar de beber e te fazer cafuné todos os dias, é só pedir. E posso até ignorar o fato de que os nossos signos não batem de jeito nenhum e que somos completamente diferentes. E lembrando de como você sempre me surpreende, eu tenho cada vez mais a certeza de que estou perdida. Perdida, encantada, louca. E não me peça para ser menos louca, porque com você a minha loucura só aumenta.