Aline e as ondas mais violentas

Aline parecia decidida no que estava prestes a fazer: Chegar em frente ao prédio, entrar no elevador, respirar fundo algumas vezes enquanto subia até o quarto andar. Bater na porta do apartamento 401, impaciente. Respirar fundo. E sentir o calor lhe aquecer o rosto quando ele abrisse a porta.

– Oi.

– Oi, Aline. O que você está fazendo aqui?

– Esqueci minha pulseira.

– Ah. Espera aí que eu vou pegar para você.

– Não posso entrar?

Ele hesita. Isso não é um bom sinal, hesitação nunca é um bom sinal. Aline abortou o plano e voltou à realidade, o sorvete já estava derretendo.

Se levantou, tentando encontrar forças para viver naquele calor insuportável, e continuou caminhando sem rumo pela areia da praia, pensando nele. E na recente decisão de não procurá-lo e de massacrar todos os devaneios que tivessem a ver com a sua barba em contato com a pele dela. Não era orgulhosa, mas sabia se prevenir das feridas profundas. Tinha um coração arranhado, apenas. Mas nunca ferido gravemente. Aline era muito protetora.

Não havia vento naquela tarde, muito menos uma brisa gostosa de verão. Tudo abafava, o sorvete derretia, até a água estava morna. A moça caminhava tranquila e sem saber o porquê ou para onde, caminhava como se cada passo marcado na areia escaldante fizesse sumir suas angústias. O sol iria derreter suas mágoas, que sairiam pelos olhos e se uniriam ao oceano.

Talvez devesse entrar no mar, fazer parte dele, sorver o gosto do sal e mergulhar na sua inconstância. Aquilo era tão parecido com a sua vida, pensou. A gente passa o tempo todo esperando uma onda que irá transformar nossa rotina superficial em um verdadeiro mergulho. Observamos a onda se aproximando e ficamos ansiosos, pensando “Olha só, sinto transformações, acho que vem coisa boa por aí”. Sempre parece coisa boa, sempre parece a possibilidade de, no mínimo, um gostoso tirar de pés do chão. Uma aventura no mar, vamos lá, estou disposta.

Mas antes que você possa piscar, a tal onda chega tão avassaladora e impetuosa que te arrasa completamente. Te vira de cabeça para baixo e você termina deitada e sem fôlego, querendo sumir dali. E pra piorar, com um monte de sujeira na calcinha.

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Sentimentos voadores não-identificados

Untitled

Eu vi nos olhos dele, o fim que aquilo daria. Dizem que os olhos são a janela da alma. Os dele eram negros, por mais verdes que fossem.

Estávamos deitados no terraço, abraçados e pelados, olhando as estrelas e imaginando qual delas seria um óvni. A lua iluminou o seu rosto e eu pensei em como ele ficava mais bonito assim, nu à luz da noite.

– Quando eu era criança, achava que ia ser abduzido. Eu ficava aqui para ser abduzido.

– Funcionou?

– Não. Quem dera. Os alienígenas só me capturaram, me analisaram… Mas não tive o privilégio de dar um passeio com eles.

Eu ri. Achava  graça em seus devaneios pessimistas de que a Terra era um péssimo lugar para se viver. Mas no fundo, acho que eu entendia. Concordava. Ele enxergava a vida de forma amarga, mas falava dela de um jeito doce. Como se fala de um grande amor que acabou, mas que nunca foi esquecido.

Aline

Art

Aline busca um grande amor, mas ninguém sabe disso. E você não pode contar, Aline me mataria se descobrisse que revelei seu segredo mais profundo. Ela é cruel. Mas ao mesmo tempo, é exatamente igual às mocinhas ingênuas dos romances que lê. Vive cantarolando alguma canção que só ela conhece e usa vestidos feitos pela avó.

Há muito tempo não a vejo, ou tenho notícias. Um conhecido me contou que a viu no metrô dia desses, com o cabelo cortado na nuca. Justo ela que tinha os cabelos longos mais lindos do mundo! Negros e escorridos pelas costas, combinavam com o seu olhar indecifrável.

Eu queria revê-la, mas nem Facebook a maldita tem, é cool demais para isso. Talvez tenha um tumblr, sei lá, um canto na internet de nome místico. E nele talvez poste fotos do céu e da lua, poemas eróticos que ela mesma escreve e músicas da banda indie folk do momento. Um dia me disse que sonhava muito com a morte.

– O que é isso, Aline? Pare de besteira!

Mas estava séria. Disse que sonhou com a própria morte e que em seu sonho ela tinha saído do corpo.

– Quando olhei para trás, me vi toda esfaqueada, sangrando no chão. Mas não tive medo, porque a morte segurava firme a minha mão e nela eu confiava.

Segurei firme a mão de Aline. Ela era de carne e osso e estava ali comigo. Só isso importava.

– Você é boba, Aline.