A história da mulher que secou

Minha mãe era gorda e feliz, pintava o cabelo de loiro-dourado e fumava três maços de Malboro por dia. Sua risada era larga, como ela. Seus olhos quase se fechavam a cada sorriso. Sua fala era cheia de máximas da mais requintada sabedoria:

– Tá com frio? Bate a bunda no rio!

– Não mãe, eu tô é morrendo de calor.

– Bate a bunda no tambor! – E dava aquelas gargalhadas altas enquanto soltava a fumaça do cigarro.

Mamãe adorava escândalos. Eu sempre pedia para ela falar mais baixo, ás vezes até suplicava.

– Mãe, vê se canta mais baixo. Por favor. Estou tentando ler. E você está desafinando.

– LA-LA-LÁ! LARAIÁAAA! LARAIÁAAA!

Parecia que ela fazia esse tipo de coisa de propósito, para implicar mesmo, sabe? Eu ficava irritada na hora, mas hoje esse é o tipo de coisa de que mais sinto falta. Da época em que ela era alegre, divertida e jovial. Dá época em que ela tinha vários namorados. Já eu, no auge dos meus quinze anos não contava sequer com um vislumbre de amor possível para aquecer as bochechas. Minhas paixões eram todas platônicas, apesar de estarem sempre por perto com os rostos colados pelas paredes do meu quarto.

Éramos mãe e filha, porém tão diferentes. Aos meus vinte anos, nós duas brincávamos de dizer que eu era a mãe e ela era a filha. Eu sempre gostei de usar roupas pretas, ou em tons mais neutros. Minha mãe se vestia de cores e flores, sempre pronta para o Carnaval. Ela não entendia – e criticava – o meu jeito solitário de gostar do cinza. Chegava em casa abrindo as janelas, dizendo que eu precisava deixar a luz do sol entrar. Passava o dia inteiro reclamando a qualquer sinal de nuvem no céu. Enquanto eu, sempre adorei dias nublados.large

Aconteceu que em um desses dias de tempo indefinido, em que a gente não sabe se o sol vai ou não sair detrás das nuvens, um homem machucou profundamente o coração de minha mãe. Não sei exatamente o que aconteceu. Na verdade, até sei, mas os detalhes nem importam nesse momento. O importante de dizer aqui, é que ela era uma mulher determinada e que amava intensamente. Entregava-se mais do que eu jamais fui capaz de me entregar por ninguém. Era corajosa, não tinha medo de sofrer. E por isso sofria.

E sofreu. E amou. E sofreu. E se deu ao luxo de amar de novo, sempre sem medo, sempre disposta. Eu tenho inveja do que ela foi. Nunca desistir, sempre acreditar no amor. É, definitivamente não foi uma coisa que eu herdei. Mamãe foi uma mulher. Uma Mulher, com M maiúsculo, uma Mulher movida a fogo e paixão. Apaixonada pela vida e apaixonada pelos homens. Apaixonada pelos seus próprios vícios, que terminaram por terminá-la.

Suas tórridas paixões lhe provocaram a velhice e as amarguras. E, sobretudo, as mágoas. Ah, as mágoas. Quando estas vieram, o número de maços de Malboro aumentou consideravelmente. Sua pele se enrugou e os dentes se amarelaram. Ela não se importava mais em deixar as cortinas fechadas. Fechou também o coração, pois decidiu que ele já tinha apanhado o suficiente. Deixou que os cupins, aos poucos, invadissem a casa e devorassem os móveis. Junto com a casa, enorme e velha, ela sucumbiu.

E veio a doença. E com todo o tempo ocioso que lhe restava, vieram as memórias. Das boas ela se lembrava, até as contava e sorria. Não gargalhava como antigamente, mas sorria feliz. As más lembranças ela guardava para si. Lembrava todos os dias, mas não ousava compartilhar. Eram tão secas na memória como o que ela tinha se tornado. Seca, de tanto ser sugada pela vida, pelos homens, pelas drogas, pelas falhas, pelas misérias, pelos seus próprios sentimentos. Secou tanto que não era mais capaz de chorar. Secou tanto que a rouquidão da voz mal passava pela garganta. Secou tanto que começou a se desfazer em meio à poeira. Secou tanto, mas tanto, que um dia só sobrou a casca. E então partiu.

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