Uma grande vida curta

large (1)Eu costumava manter um sorriso largo no rosto quando ele estava por perto. Pegava aquela mãozinha – metade do tamanho da minha – e sentia a maior satisfação pelo fato de aquela coisinha ser um pedaço de mim. E na mesma hora eu reparava naqueles dedos sujos de tanto brincar no jardim. E depois reclamava. “Que unha suja, menino! Até parece que não tem mãe!”

Eu sinto falta do cheiro de terra doce que ele tinha. Vivia brincando por aí, todo serelepe em seus jardins secretos. Tinha os olhos grandes que abrigavam sonhos ainda maiores. Gostava de correr tão rápido que, certa vez, cheguei a acreditar que ele podia alçar voo. Corria para longe e voltava com um novo achado, sempre algum objeto inútil. Uma pedra que brilhava no sol, um pedaço de papel rasgado. Ele enxergava magia em tudo.

Gostava de ouvir minhas histórias, eram as poucas ocasiões em que se aquietava por alguns minutos. Eu contava das minhas aventuras, das vezes que enfrentei piratas no alto da montanha. Dos dragões que matei e dos que lutaram ao meu lado. Ou de quando eu descobri um ninho de fadas e passei um tempão morando com elas. Ele realmente acreditava que pudesse existir uma vida assim, tão extraordinária. Aquele menino do cabelo espetado era o meu príncipe encantado, o da risada mais gostosa.

Um dia ele correu tão rápido e distante que finalmente voou. Coloriu o meu mundo e resolveu que bastava, já tinha cumprido a sua missão por aqui. Faz falta, o meu menino. Que bom não ter vivido o suficiente para provar o amargo do mundo! Que bom.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s