Gata borralheira

Black and white

Eu não sei o que mudou, mas você me transformou de alguma forma. Te perdi e não chorei nem esperneei. Porque de certa forma eu nunca te tive e quando você se foi, foi como acordar de um sonho bonito. Agora o que eu faço é tentar voltar a sonhar, mas não adianta. Nós vivemos algo que precisa ser sonhado a dois, mas você não quer me colocar para dormir de novo. Aquela canção de ninar era tão bonita, mas você não quer cantar para mim de novo. Deve estar cobrindo outras moças com seus braços quentes, porque você gosta mesmo é de cuidar. Mas não se importa em abandonar quem passa a depender dos seus cuidados.

E por incrível que pareça, eu estou lidando muito bem com essa falta de te ter. Eu sempre achei que não merecia o carinho todo que você me dava, então estava claro, o seu carinho não era para mim. Era só o seu instinto de cuidar de uma gatinha doente e abandonada que achou em uma praça qualquer. Quando a gatinha se curou e quis se aconchegar melhor, você a devolveu para a rua, não podia ficar com ela. Apressou-se em devolvê-la ao mundo, antes que vínculos fortes demais fossem criados. “Há muitas outras gatinhas que precisam de mim”, você deve ter pensado.

O que não sabia – e talvez um dia aprenda – é que uma gata perdida, por mais que pareça independente, só pula de muro em muro porque procura um lar.

Mas não importa, eu sou vira-lata vacinada. Me viro por aí, e essa não foi nem a primeira nem a última vida que perdi. As minhas sete vidas não são contadas em amores perdidos, mas sim em sonhos vividos.

Lua nossa

Lunar eclipse🌕

Lá estávamos, às 23h23min, sentados nas cadeiras de tomar sol, mas tomando um banho de lua. Admirados com uma coisinha besta se comparada à imensidão das galáxias.

– É incrível. Dá vontade de pegar. Parece que eu posso estender a minha mão e tocá-la. – Ele mediu a Lua com a ponta dos dedos. – A próxima vez a acontecer será em 2033.

Eu também medi a lua com a ponta dos dedos. Depois tentei pegá-la. E depois, desejei que ela estivesse caindo aos poucos. Se aproximando da Terra como um meteoro destrutivo. Atraente e avassaladora, ela reinava no céu. Me senti inspirada, instigada.

– Eu te amo.

– Porque está dizendo isso agora? – Ele disse, surpreso. Demonstrações de afeto nunca foram de meu feitio.

– Porque eu não sei se vou ter você do meu lado em 2033. Porque talvez nós nunca mais vejamos um eclipse juntos.

O céu estava mais claro do que o normal. Eu achava que um eclipse deixaria tudo escuro, mas estava mais claro. As estrelas estavam mais visíveis, pontilhadas, granuladas.Eu tinha a impressão de que o universo havia se expandido aos meus olhos e eu conseguia perceber a nossa localização em meio a tantos infinitos. Nós não estávamos mais no quintal de casa. Estávamos entre o sol e a lua, e por isso eu me sentia privilegiada. Tinha ao meu lado alguém que, mesmo se a Lua caísse em nossas cabeças, ainda sim me protegeria.

– Eu também te amo.

A história da mulher que secou

Minha mãe era gorda e feliz, pintava o cabelo de loiro-dourado e fumava três maços de Malboro por dia. Sua risada era larga, como ela. Seus olhos quase se fechavam a cada sorriso. Sua fala era cheia de máximas da mais requintada sabedoria:

– Tá com frio? Bate a bunda no rio!

– Não mãe, eu tô é morrendo de calor.

– Bate a bunda no tambor! – E dava aquelas gargalhadas altas enquanto soltava a fumaça do cigarro.

Mamãe adorava escândalos. Eu sempre pedia para ela falar mais baixo, ás vezes até suplicava.

– Mãe, vê se canta mais baixo. Por favor. Estou tentando ler. E você está desafinando.

– LA-LA-LÁ! LARAIÁAAA! LARAIÁAAA!

Parecia que ela fazia esse tipo de coisa de propósito, para implicar mesmo, sabe? Eu ficava irritada na hora, mas hoje esse é o tipo de coisa de que mais sinto falta. Da época em que ela era alegre, divertida e jovial. Dá época em que ela tinha vários namorados. Já eu, no auge dos meus quinze anos não contava sequer com um vislumbre de amor possível para aquecer as bochechas. Minhas paixões eram todas platônicas, apesar de estarem sempre por perto com os rostos colados pelas paredes do meu quarto.

Éramos mãe e filha, porém tão diferentes. Aos meus vinte anos, nós duas brincávamos de dizer que eu era a mãe e ela era a filha. Eu sempre gostei de usar roupas pretas, ou em tons mais neutros. Minha mãe se vestia de cores e flores, sempre pronta para o Carnaval. Ela não entendia – e criticava – o meu jeito solitário de gostar do cinza. Chegava em casa abrindo as janelas, dizendo que eu precisava deixar a luz do sol entrar. Passava o dia inteiro reclamando a qualquer sinal de nuvem no céu. Enquanto eu, sempre adorei dias nublados.large

Aconteceu que em um desses dias de tempo indefinido, em que a gente não sabe se o sol vai ou não sair detrás das nuvens, um homem machucou profundamente o coração de minha mãe. Não sei exatamente o que aconteceu. Na verdade, até sei, mas os detalhes nem importam nesse momento. O importante de dizer aqui, é que ela era uma mulher determinada e que amava intensamente. Entregava-se mais do que eu jamais fui capaz de me entregar por ninguém. Era corajosa, não tinha medo de sofrer. E por isso sofria.

E sofreu. E amou. E sofreu. E se deu ao luxo de amar de novo, sempre sem medo, sempre disposta. Eu tenho inveja do que ela foi. Nunca desistir, sempre acreditar no amor. É, definitivamente não foi uma coisa que eu herdei. Mamãe foi uma mulher. Uma Mulher, com M maiúsculo, uma Mulher movida a fogo e paixão. Apaixonada pela vida e apaixonada pelos homens. Apaixonada pelos seus próprios vícios, que terminaram por terminá-la.

Suas tórridas paixões lhe provocaram a velhice e as amarguras. E, sobretudo, as mágoas. Ah, as mágoas. Quando estas vieram, o número de maços de Malboro aumentou consideravelmente. Sua pele se enrugou e os dentes se amarelaram. Ela não se importava mais em deixar as cortinas fechadas. Fechou também o coração, pois decidiu que ele já tinha apanhado o suficiente. Deixou que os cupins, aos poucos, invadissem a casa e devorassem os móveis. Junto com a casa, enorme e velha, ela sucumbiu.

E veio a doença. E com todo o tempo ocioso que lhe restava, vieram as memórias. Das boas ela se lembrava, até as contava e sorria. Não gargalhava como antigamente, mas sorria feliz. As más lembranças ela guardava para si. Lembrava todos os dias, mas não ousava compartilhar. Eram tão secas na memória como o que ela tinha se tornado. Seca, de tanto ser sugada pela vida, pelos homens, pelas drogas, pelas falhas, pelas misérias, pelos seus próprios sentimentos. Secou tanto que não era mais capaz de chorar. Secou tanto que a rouquidão da voz mal passava pela garganta. Secou tanto que começou a se desfazer em meio à poeira. Secou tanto, mas tanto, que um dia só sobrou a casca. E então partiu.

O amor é uma bobagem

Imagem de flowers, grunge, and indie

Hoje eu estava lembrando daquele dia em que eu quebrei meu pé e meu coração por você. Eu tinha bebido demais e inventei de fazer qualquer gracinha para te impressionar, mas tropecei e caí. Fui para casa carregada pelos meus amigos que acharam que o meu choro tinha a ver com a lesão e o inchaço, mas o que mais doía mesmo era meu coração. O aperto no peito durou alguns dias.

Tive bastante tempo pra curtir a fossa, já que só ficava em casa por recomendações médicas e tendo como única companhia as minhas muletas. Lembro que foi por esses dias que assisti ao filme da Frida Kahlo e chorei horrores, achando a minha vida tão difícil quanto a dela e me sentindo a maior vítima dos acasos do universo. Bobagem. Com o tempo a gente aprende que um coração quebrado cura mais rápido e melhor do que um tendão lesionado.

Foi assim que eu lembrei disso hoje. E lembrei de todos os amores que já tive e de todas as vezes em que eu achei que nunca mais fosse amar de novo. Do quanto eu sofri encolhida na cama, soluçando muito e prometendo a mim mesma que era a última vez que um babaca como aquele me faria chorar. E não foi. Lembrei dos meus quatorze anos, quando eu me apaixonei por um loirinho que nem sabia o meu nome. E nem sabia das tantas vezes que o nome dele aparecia no meu diário e nem do sonho que eu tive, em que ele me abraçava forte e prometia nunca me abandonar.

Também estou lembrando daquele cara que conheci mês passado e de como achei que a gente tinha uma conexão telepática-fisico-espiritual, e que dessa vez podia dar certo. Mais bobagens, eu suponho. Bobagens das quais não me arrependo, nem de ter vivido, nem de ter sonhado. Bobagens sem sentido, mas com toda a razão que uma paixão pode ter. E o que seria da vida sem as paixões? O que seriam das paixões sem as bobagens?

Eu só sei que eu prefiro mil vezes um coração partido a um vazio. A gente tem que correr riscos, tentando, amando e quebrando a cara. E não importa se a gente tem quatorze, vinte e três, ou cinquenta e quatro anos. Sempre vai ter alguém que pode tirar o seu chão só por não estar por perto. E a isso chamamos bobagem. Ops, amor.

Uma grande vida curta

large (1)Eu costumava manter um sorriso largo no rosto quando ele estava por perto. Pegava aquela mãozinha – metade do tamanho da minha – e sentia a maior satisfação pelo fato de aquela coisinha ser um pedaço de mim. E na mesma hora eu reparava naqueles dedos sujos de tanto brincar no jardim. E depois reclamava. “Que unha suja, menino! Até parece que não tem mãe!”

Eu sinto falta do cheiro de terra doce que ele tinha. Vivia brincando por aí, todo serelepe em seus jardins secretos. Tinha os olhos grandes que abrigavam sonhos ainda maiores. Gostava de correr tão rápido que, certa vez, cheguei a acreditar que ele podia alçar voo. Corria para longe e voltava com um novo achado, sempre algum objeto inútil. Uma pedra que brilhava no sol, um pedaço de papel rasgado. Ele enxergava magia em tudo.

Gostava de ouvir minhas histórias, eram as poucas ocasiões em que se aquietava por alguns minutos. Eu contava das minhas aventuras, das vezes que enfrentei piratas no alto da montanha. Dos dragões que matei e dos que lutaram ao meu lado. Ou de quando eu descobri um ninho de fadas e passei um tempão morando com elas. Ele realmente acreditava que pudesse existir uma vida assim, tão extraordinária. Aquele menino do cabelo espetado era o meu príncipe encantado, o da risada mais gostosa.

Um dia ele correu tão rápido e distante que finalmente voou. Coloriu o meu mundo e resolveu que bastava, já tinha cumprido a sua missão por aqui. Faz falta, o meu menino. Que bom não ter vivido o suficiente para provar o amargo do mundo! Que bom.

O primeiro post é sempre o primeiro post

“E eu quero as cores e os colírios, meus delírios…estou ligada num futuro blue.”

Oi pessoal! Meu nome é Maya Marques, tenho 20 anos. Não sou tão nova na blogosfera (se é que alguém ainda usa esse termo) já tive um blog que comecei em 2010 com 15 anos e durou até 2013. O blog chamava “Eu quero tudo!”, para o caso de você ser curioso o suficiente para jogar no Google. Eu poderia colocar o link aqui? Poderia. Mas estou me desapegando do passado (ui!) hahahah.

2015-09-07 20.14.00

Enfim, aos poucos fui abandonando meu antigo blog por falta de tempo para postar – foi na época que eu entrei na faculdade de Publicidade e no Teatro no mesmo ano e a minha rotina era tipo, UOW, PRECISO DE TEMPO PRA RESPIRAR – e depois tive muita preguiça de voltar. Agora decidi começar do zero, até porque eu não me interesso mais pelas mesmas coisas, portanto não vai ser o mesmo tipo de conteúdo. Claro, qualquer blog ou texto que eu escreva vai ter sempre o meu jeitinho, mas convenhamos: eu não tenho mais dezessete anos. Não que eu seja suuuuper madura, longe de mim afirmar isso, hahah. É só que o meu foco agora é um pouquinho diferente.

E isso já puxa um gancho para o nome desse blog, url, site, endereço de web em que você está situado. Mas que pra mim, é um pedacinho do meu mundo que estou disposta a dividir com outras pessoas. O nome é o título de uma música cantada pela Elis Regina, que na verdade se chama 20 anos blues. É uma música linda que fala dos dramas de qualquer jovem de vinte e poucos anos, todas as pressões da vida adulta, todas as cobranças de si próprio para se tornar quem um dia sonhou. Enfim, é uma música que tem a ver com o atual momento da minha vida e acredito que com alguns de vocês, porque não existe nenhum sentimento exclusivo a uma única pessoa.

Ás vezes a gente sofre por coisas bobas, mas que tem um significado enorme para nós. E nos esquecemos das outras pessoas espalhadas por esse vasto mundo que sentem as mesmas angústias. Os mesmos desejos frustados. As mesmas paixões desesperançadas. E muitos sentimentos bons também. E é isso que é legal de ter blog: compartilhar coisas (nem que seja uma receita de bolo) e receber retorno em comentários e opiniões. Só que de um jeito um pouco menos zueira do que no Facebook. Bacana é saber que o que eu escrevo tem algum efeito nas pessoas.

Eu poderia escrever para mim mesma? É claro que eu poderia, porque escrever é uma coisa que eu amo. Nunca parei, mesmo distante do blog. Tenho uma pasta no meu computador só de textos que escrevi. E tenho um diário. Sim, sou uma mulher adulta e tenho um diário, e daí? Tive diários a minha vida inteira, e além do blog também já escrevi muita fanfic do RBD e do HSM – me julguem. Mas além de escrever, eu gosto de saber em que proporção as minhas palavras afetam as outras pessoas. Se eu não pudesse mudar ou mexer com o pensamento de alguém não teria tanta graça. Eu quero compartilhar um pouco de mim com vocês, porque somos todos tão parecidos – embora às vezes achemos que somos o centro do universo – e ao mesmo tempo, tão singulares.

Bom, o que era para ser um textinho de apresentação acabou virando uma auto-biografia cheia de filosofias. Então é melhor eu parar por aqui antes que eu comece a perguntar “de onde viemos? para onde vamos?”, hahah. Espero vocês nos próximos posts desse blog que mal conheço e já considero pacas. Mil beijos!

P.S.: Saudades fanfics do orkut (que na época eram chamadas de web-novelas).

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